Custos e Função de Produção Não Linear ex

Autor
Afiliação

Roney Fraga Souza

Universidade Federal de Mato Grosso

Data de Publicação

2026-03-21

Função de Produção Não Linear

Uma função de produção não linear descreve uma relação entre insumos e produto na qual os acréscimos sucessivos de um fator produtivo resultam em retornos marginais decrescentes. Isso é típico em contextos com apenas um insumo variável no curto prazo, mantendo os demais fixos.

Neste documento, usamos a seguinte função de produção:

\[ Q(L) = 10 \cdot \sqrt{L} \]

ou

\[ Q(L) = 10 L ^ \frac{1}{2} \]

  • Com:
    • \(Q\): quantidade produzida
    • \(L\): quantidade de trabalho
    • \(\sqrt{L}\) ou \(L^\frac{1}{2}\): captura os retornos decrescentes do trabalho
    • Capital é fixo no curto prazo

Suposições do Exemplo

  • Salário por unidade de trabalho:
  • Custo fixo total (capital):
  • Quantidades de trabalho: \(L = 1\) a \(10\)

Cálculos

Código
suppressPackageStartupMessages({
  library(tidyverse)
  library(gt)
})

w <- 25
CF <- 100
L <- 1:10

# 10 * sqrt(L)
# 10 * (L ^ (1 / 2))

tibble(L) |>
  mutate(
    Q = 10 * sqrt(L),
    # Q = 10 * (L ^ (1 / 2)),
    CV = w * L,
    CT = CF + CV,
    CF = CF,
    CFMe = CF / Q,
    CVMe = CV / Q,
    CTMe = CT / Q,
    CMg = c(NA, diff(CT) / diff(Q))
  ) ->
  df

Tabela de custos

Código
df |>
  mutate(across(c(CFMe, CVMe, CTMe, CMg), ~round(.x, 2))) |>
  gt()
L Q CV CT CF CFMe CVMe CTMe CMg
1 10.00000 25 125 100 10.00 2.50 12.50 NA
2 14.14214 50 150 100 7.07 3.54 10.61 6.04
3 17.32051 75 175 100 5.77 4.33 10.10 7.87
4 20.00000 100 200 100 5.00 5.00 10.00 9.33
5 22.36068 125 225 100 4.47 5.59 10.06 10.59
6 24.49490 150 250 100 4.08 6.12 10.21 11.71
7 26.45751 175 275 100 3.78 6.61 10.39 12.74
8 28.28427 200 300 100 3.54 7.07 10.61 13.69
9 30.00000 225 325 100 3.33 7.50 10.83 14.57
10 31.62278 250 350 100 3.16 7.91 11.07 15.41

Gráfico de Custos Totais

Código
df |>
  select(Q, CF, CV, CT) |>
  pivot_longer(cols = -Q, names_to = "Tipo", values_to = "Custo") |>
  ggplot(aes(x = Q, y = Custo, color = Tipo)) +
  geom_line(linewidth = 1.2) +
  geom_point() +
  labs(title = "Custos Totais vs Produção", x = "Quantidade (Q)", y = "Custo") +
  theme_minimal()

Gráfico de Custos Médios e Marginal

Código
df |>
  select(Q, CFMe, CVMe, CTMe, CMg) |>
  pivot_longer(cols = -Q, names_to = "Tipo", values_to = "Valor") |>
  ggplot(aes(x = Q, y = Valor, color = Tipo)) +
  geom_line(linewidth = 1.2, na.rm = TRUE) +
  geom_point(na.rm = TRUE) +
  labs(title = "Custos Médios e Marginal vs Produção", x = "Quantidade (Q)", y = "Custo por unidade") +
  theme_minimal()

Análise Microeconômica do Exemplo

Este exemplo de função de produção não linear permite extrair diversas lições fundamentais da teoria da firma no curto prazo.

1. Retornos marginais decrescentes

A função de produção é:

\[ Q(L) = 10 \cdot \sqrt{L} \]

A produtividade marginal do trabalho é:

\[ \frac{dQ}{dL} = \frac{5}{\sqrt{L}} \]

ou \[ \frac{dQ}{dL} = \frac{5}{L^\frac{1}{2}} \]

Ou seja, cada unidade adicional de trabalho gera menos produto adicional do que a anterior. Isso ilustra o princípio dos rendimentos marginais decrescentes, central na teoria da produção de curto prazo.

  • Derivada da Função de Produção: Passo a Passo

Considere a seguinte função de produção não linear:

\[ Q(L) = 10 \cdot \sqrt{L} \]

Sabemos que:

\[ \sqrt{L} = L^{1/2} \]

Portanto, a função pode ser reescrita como:

\[ Q(L) = 10 \cdot L^{1/2} \]

  • Regra de Derivação

Para uma função da forma:

\[ f(L) = a \cdot L^n \]

A regra da potência nos dá:

\[ \frac{d}{dL} \left( a \cdot L^n \right) = a \cdot n \cdot L^{n - 1} \]

  • Aplicando à função de produção

Na nossa função:

  • $ a = 10 $
  • $ n = $

Logo:

\[ \frac{dQ}{dL} = 10 \cdot \frac{1}{2} \cdot L^{-1/2} \]

Simplificando

\[ \frac{dQ}{dL} = 5 \cdot L^{-1/2} \]

Sabemos que:

\[ L^{-1/2} = \frac{1}{\sqrt{L}} \]

Portanto:

\[ \frac{dQ}{dL} = \frac{5}{\sqrt{L}} \]

Interpretação Econômica

Essa derivada representa o produto marginal do trabalho: a variação da produção \(Q\) gerada por uma variação infinitesimal na quantidade de trabalho \(L\), mantendo o capital fixo.

Como \(\frac{5}{\sqrt{L}}\) diminui com o aumento de \(L\), temos um caso típico de retornos marginais decrescentes, como previsto pela teoria da firma no curto prazo.

2. Custo marginal crescente

Como o produto marginal decresce, o custo marginal aumenta. Ele é dado por:

\[ CMg = \frac{\Delta CT}{\Delta Q} \]

Cada unidade adicional de produto exige mais insumo, resultando em um custo marginal crescente. Isso é visível no gráfico, com a curva de custo marginal inclinada positivamente.

3. Custos médios em formato de “U”

Os custos médios têm comportamento típico:

  • Custo fixo médio (CFMe): sempre decrescente, pois o custo fixo é dividido por quantidades crescentes.
  • Custo variável médio (CVMe) e Custo total médio (CTMe): inicialmente decrescentes, atingem um mínimo e depois crescem.

Este comportamento resulta da interação entre a diluição do custo fixo e o aumento do custo marginal.

4. Cruzamento do custo marginal com os custos médios

O custo marginal (CMg) cruza o custo médio total (CTMe) e o custo variável médio (CVMe) nos seus respectivos pontos mínimos. Isso é uma propriedade matemática central:

  • Quando \(CMg < CTMe\), então \(CTMe\) está diminuindo.
  • Quando \(CMg > CTMe\), então \(CTMe\) está aumentando.

Portanto, o ponto de cruzamento indica o valor mínimo dos custos médios.

5. Implicações para decisões da firma

O exemplo permite discutir decisões típicas de uma firma no curto prazo:

  • A firma maximiza o lucro quando \(P = CMg\), ou seja, o preço se iguala ao custo marginal.
  • O ponto de mínimo do \(CTMe\) pode indicar a escala eficiente de produção.
  • A análise permite discutir o ponto de encerramento da firma no curto prazo, quando o preço não cobre o custo variável médio.

6. Curto prazo e estrutura de custos

Como o capital é fixo, estamos no curto prazo. A presença de custo fixo (\(CF\)) e o comportamento dos custos refletem as restrições técnicas enfrentadas pela firma.

No longo prazo, todos os fatores são variáveis, não há custo fixo, e a forma das curvas de custo pode ser diferente.