Efeitos Renda e Substituição

Autor
Afiliação

Roney Fraga Souza

Universidade Federal de Mato Grosso

Data de Publicação

2026-04-30

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Símbolo Significado
\(x^*(p_x, p_y, I)\) função de demanda Marshalliana do bem \(x\)
\(y^*(p_x, p_y, I)\) função de demanda Marshalliana do bem \(y\)
\(t > 0\) fator de escala comum aplicado a preços e renda
grau 0 \(f(t \cdot \text{args}) = t^0 f(\text{args}) = f(\text{args})\)

Desenvolvimento Teórico

Uma propriedade central das funções de demanda Marshallianas é que elas são homogêneas de grau zero em preços e renda. Formalmente, para qualquer fator de escala \(t > 0\):

\[x^*(t p_x, t p_y, t I) = x^*(p_x, p_y, I)\]

\[y^*(t p_x, t p_y, t I) = y^*(p_x, p_y, I)\]

A intuição é direta: se todos os preços e a renda do consumidor são multiplicados pelo mesmo fator, nem os preços relativos nem o poder de compra real mudam — portanto, a cesta ótima escolhida também não muda (Nicholson e Snyder, 2012).

A prova formal vem diretamente da restrição orçamentária. Considere o conjunto de cestas factíveis aos preços e renda originais:

\[\begin{aligned} p_x x + p_y y &= I & & \text{restrição orçamentária original} \end{aligned}\]

Agora multiplique todos os preços e a renda por \(t > 0\) e escreva a nova restrição:

\[\begin{aligned} t p_x x + t p_y y &= t I & & \text{multiplicando tudo por } t \\[6pt] t (p_x x + p_y y) &= t I & & \text{fatorando } t \text{ no lado esquerdo} \\[6pt] p_x x + p_y y &= I & & \text{dividindo ambos os lados por } t \end{aligned}\]

A nova restrição é algebricamente idêntica à original. Como o conjunto factível não se altera e as preferências do consumidor também não dependem dos valores monetários dos preços, o problema de maximização é o mesmo — e, portanto, a cesta ótima é a mesma.

Geometricamente, a reta orçamentária não muda: nem a inclinação \(-p_x/p_y\) (pois \(-t p_x / t p_y = -p_x/p_y\)) nem os interceptos \(I/p_x\) e \(I/p_y\) (pois \(t I / t p_x = I / p_x\)) são afetados pela escala comum. O consumidor vê exatamente a mesma fronteira de oportunidades (Nicholson e Snyder, 2012).

Exercício Resolvido

Considere a função utilidade Cobb-Douglas \(U(x, y) = x^{0{,}5} y^{0{,}5}\), cujas demandas Marshallianas são:

\[x^*(p_x, p_y, I) = \frac{0{,}5 \, I}{p_x}, \qquad y^*(p_x, p_y, I) = \frac{0{,}5 \, I}{p_y}\]

Vamos verificar algebricamente que \(x^*\) é homogênea de grau zero. Substituindo os argumentos escalados:

\[\begin{aligned} x^*(t p_x, t p_y, t I) &= \frac{0{,}5 \cdot (t I)}{t p_x} & & \text{aplicando a fórmula nos argumentos escalados} \\[6pt] &= \frac{t \cdot 0{,}5 \, I}{t \, p_x} & & \text{reorganizando o produto} \\[6pt] &= \frac{0{,}5 \, I}{p_x} & & \text{cancelando } t \text{ no numerador e denominador} \\[6pt] &= x^*(p_x, p_y, I) & & \text{igual ao caso original} \end{aligned}\]

O mesmo raciocínio vale para \(y^*\). Portanto, escalar preços e renda pelo mesmo fator \(t\) não altera as quantidades demandadas.

Verificação numérica. Tomemos o cenário base \(p_x = 1\), \(p_y = 4\), \(I = 8\) e comparemos com a versão dobrada (\(t = 2\)):

Cenário \(t\) \(p_x\) \(p_y\) \(I\) \(x^* = 0{,}5 I / p_x\) \(y^* = 0{,}5 I / p_y\) \(U^* = \sqrt{x^* y^*}\)
Original 1 1 4 8 4 1 2
Escalado 2 2 8 16 4 1 2

As quantidades ótimas são idênticas: \(x^* = 4\) e \(y^* = 1\) em ambos os cenários, confirmando a homogeneidade de grau zero.

Implementação em R

Código
# Painel (a): cenário original — p_x = 1, p_y = 4, I = 8
# Reta: x + 4y = 8 => intercepto horizontal x = 8, vertical y = 2
p1 <- ggplot() +
  geom_segment(
    aes(x = 0, y = 2, xend = 8, yend = 0),
    color = "blue", linewidth = 1.1
  ) +
  geom_point(
    aes(x = 4, y = 1),
    color = "red", size = 3.5
  ) +
  annotate("text", x = 4.5, y = 1.4,
           label = latex2exp::TeX(r"($(x^*, y^*) = (4, 1)$)"),
           size = 4, color = "red", hjust = 0) +
  annotate("text", x = 5.5, y = 1.9,
           label = latex2exp::TeX(r"($x + 4y = 8$)"),
           size = 4, color = "blue") +
  scale_x_continuous(
    expand = c(0, 0),
    limits = c(0, 9),
    breaks = seq(0, 8, 2)
  ) +
  scale_y_continuous(
    expand = c(0, 0),
    limits = c(0, 3),
    breaks = seq(0, 3, 1)
  ) +
  labs(
    x = latex2exp::TeX(r"($x$)"),
    y = latex2exp::TeX(r"($y$)"),
    title = latex2exp::TeX(r"((a) Original: $p_x = 1$, $p_y = 4$, $I = 8$)")
  ) +
  theme_minimal() +
  theme(
    axis.line  = element_line(color = "black", linewidth = 0.8),
    panel.grid = element_blank()
  )

# Painel (b): cenário escalado (t = 2) — p_x = 2, p_y = 8, I = 16
# Reta: 2x + 8y = 16 => intercepto horizontal x = 8, vertical y = 2 (idêntica)
p2 <- ggplot() +
  geom_segment(
    aes(x = 0, y = 2, xend = 8, yend = 0),
    color = "darkgreen", linewidth = 1.1
  ) +
  geom_point(
    aes(x = 4, y = 1),
    color = "red", size = 3.5
  ) +
  annotate("text", x = 4.5, y = 1.4,
           label = latex2exp::TeX(r"($(x^*, y^*) = (4, 1)$)"),
           size = 4, color = "red", hjust = 0) +
  annotate("text", x = 5.5, y = 1.9,
           label = latex2exp::TeX(r"($2x + 8y = 16$)"),
           size = 4, color = "darkgreen") +
  scale_x_continuous(
    expand = c(0, 0),
    limits = c(0, 9),
    breaks = seq(0, 8, 2)
  ) +
  scale_y_continuous(
    expand = c(0, 0),
    limits = c(0, 3),
    breaks = seq(0, 3, 1)
  ) +
  labs(
    x = latex2exp::TeX(r"($x$)"),
    y = latex2exp::TeX(r"($y$)"),
    title = latex2exp::TeX(r"((b) Escalado ($t = 2$): $p_x = 2$, $p_y = 8$, $I = 16$)")
  ) +
  theme_minimal() +
  theme(
    axis.line  = element_line(color = "black", linewidth = 0.8),
    panel.grid = element_blank()
  )

p1 + p2

Interpretação

A homogeneidade de grau zero tem uma implicação econômica direta: uma inflação “pura”, em que todos os preços e a renda nominal variam na mesma proporção, não altera as quantidades demandadas. A demanda depende dos preços relativos (\(p_x/p_y\)) e da renda real (\(I/p_x\), \(I/p_y\)), nunca de valores monetários absolutos. Trocar reais por centavos multiplicando tudo por 100 resultaria na mesma cesta ótima.

O contraste com uma inflação não-uniforme é essencial: quando apenas alguns preços sobem, ou sobem em proporções diferentes, os preços relativos mudam e a reta orçamentária gira, alterando a cesta ótima. Os próximos callouts (Note 5.2, Note 5.3) exploram esses casos, em que a homogeneidade não se aplica porque o choque não é uniforme.

Símbolo Significado
\(I_1 < I_2 < I_3\) níveis crescentes de renda (preços fixos)
\(\partial x^*/\partial I\) variação da demanda Marshalliana do bem \(x\) em resposta à renda
\(\partial x^*/\partial I \geq 0\) bem normal — consumo não diminui quando a renda sobe
\(\partial x^*/\partial I < 0\) bem inferior — consumo cai quando a renda sobe
curva de Engel relação \(x^*(I)\) com \(p_x\) e \(p_y\) fixos

Desenvolvimento Teórico

Uma variação na renda nominal \(I\), mantendo os preços \(p_x\) e \(p_y\) constantes, produz um deslocamento paralelo da reta orçamentária. A inclinação \(-p_x/p_y\) permanece inalterada — afinal, os preços relativos não mudaram — mas os dois interceptos, \(I/p_x\) no eixo horizontal e \(I/p_y\) no eixo vertical, escalam proporcionalmente com \(I\). Um aumento na renda empurra a reta orçamentária para fora (paralelamente a si mesma); uma queda na renda a empurra para dentro (Nicholson e Snyder, 2012).

Como o conjunto factível se expande (ou contrai) sem que os preços relativos se alterem, a nova cesta ótima é a tangência entre a nova reta orçamentária e uma curva de indiferença diferente. A Fig. 5.1 de Nicholson e Snyder (2012) ilustra esse movimento com três rendas crescentes \(I_1 < I_2 < I_3\), gerando três retas paralelas e três pontos de tangência — um em cada curva de indiferença sucessivamente mais elevada. Unindo esses pontos ótimos no plano \((x, y)\), obtém-se a curva renda-consumo (income expansion path).

Formalmente, define-se:

\[\begin{aligned} \text{bem normal:} & \quad \frac{\partial x^*}{\partial I} \geq 0 \\[6pt] \text{bem inferior:} & \quad \frac{\partial x^*}{\partial I} < 0 \end{aligned}\]

Um bem é normal quando seu consumo aumenta (ou ao menos não diminui) com a renda; é inferior quando seu consumo efetivamente cai quando a renda sobe. Note que a classificação é local — um mesmo bem pode ser normal em certas faixas de renda e inferior em outras. A Fig. 5.2 de Nicholson e Snyder (2012) mostra o caso de um bem inferior: quando a renda passa de \(I_2\) para \(I_3\), a tangência se desloca para a esquerda no eixo \(x\), indicando que \(\partial x^*/\partial I < 0\). Esse padrão exige preferências não-homotéticas — curvas de indiferença cujas inclinações ao longo de um raio saído da origem não se repetem (Nicholson e Snyder, 2012).

Fixando \(p_x\) e \(p_y\), a função \(x^*(I)\) — com \(p_x, p_y\) como parâmetros — é chamada de curva de Engel do bem \(x\). Ela é o análogo, no espaço renda-quantidade, da curva de demanda no espaço preço-quantidade: registra como a quantidade ótima de \(x\) responde a variações exclusivas da renda. Curvas de Engel crescentes correspondem a bens normais; curvas decrescentes (em alguma faixa), a bens inferiores.

Exercício Resolvido

Considere a função utilidade Cobb-Douglas \(U(x, y) = x^{0{,}5} y^{0{,}5}\), com preços \(p_x = 1\) e \(p_y = 4\).

Para a Cobb-Douglas \(U = x^\alpha y^\beta\) com \(\alpha + \beta = 1\), a derivação via Lagrangiano (ver Note 4.5) produz as demandas Marshallianas \(x^* = \alpha I/p_x\) e \(y^* = \beta I/p_y\). Com \(\alpha = \beta = 0{,}5\) (fio-condutor deste capítulo):

\[x^*(p_x, p_y, I) = \frac{0{,}5 \, I}{p_x}, \qquad y^*(p_x, p_y, I) = \frac{0{,}5 \, I}{p_y}\]

Derivando \(x^*\) em relação a \(I\):

\[\begin{aligned} x^*(p_x, p_y, I) &= \frac{0{,}5 \, I}{p_x} & & \text{demanda Marshalliana Cobb-Douglas} \\[6pt] \frac{\partial x^*}{\partial I} &= \frac{0{,}5}{p_x} & & \text{derivada parcial em relação a } I \\[6pt] &= \frac{0{,}5}{1} = 0{,}5 > 0 & & \text{avaliada em } p_x = 1 \end{aligned}\]

Como \(\partial x^*/\partial I = 0{,}5 > 0\) para qualquer \(p_x > 0\), o bem \(x\) é normal. O mesmo raciocínio aplicado a \(y^*\) mostra que \(y\) também é normal. Esse é um resultado geral: a forma funcional Cobb-Douglas sempre produz bens normais, pois as frações de gasto \(\alpha = 0{,}5\) e \(1 - \alpha = 0{,}5\) são positivas e constantes.

Tabela numérica. Variando a renda em \(I \in \{4, 8, 12\}\) com \(p_x = 1\) e \(p_y = 4\):

\(I\) \(x^* = 0{,}5 I / p_x\) \(y^* = 0{,}5 I / p_y\) \(U^* = \sqrt{x^* y^*}\)
4 2 0,5 1
8 4 1 2
12 6 1,5 3

Observe que, para Cobb-Douglas, a curva de Engel é linear e passa pela origem — a relação entre \(x^*\) e \(I\) é \(x^* = 0{,}5 \, I\), com inclinação constante igual a \(0{,}5/p_x\). Dobrar a renda dobra a quantidade demandada de cada bem; triplicar triplica. A elasticidade-renda é unitária.

Implementação em R

Código
# Painel (a): réplica da Fig 5.1 — mapa de indiferença com 3 tangências
# Curvas de indiferença Cobb-Douglas U = sqrt(x y)  =>  y = U^2 / x
#   U = 1 => y = 1/x ; U = 2 => y = 4/x ; U = 3 => y = 9/x
# Retas orçamentárias (p_x = 1, p_y = 4):
#   I = 4  => de (0, 1) a (4, 0)
#   I = 8  => de (0, 2) a (8, 0)
#   I = 12 => de (0, 3) a (12, 0)
# Tangências: (2, 0.5), (4, 1), (6, 1.5) — sobre a reta renda-consumo

p_a <- ggplot() +
  # Curvas de indiferença
  geom_function(fun = \(x) 1 / x, xlim = c(0.35, 13),
                color = "blue", linewidth = 0.8) +
  geom_function(fun = \(x) 4 / x, xlim = c(1.35, 13),
                color = "blue", linewidth = 0.8) +
  geom_function(fun = \(x) 9 / x, xlim = c(2.3,  13),
                color = "blue", linewidth = 0.8) +
  # Retas orçamentárias paralelas
  geom_segment(aes(x = 0, y = 1, xend = 4,  yend = 0),
               color = "black", linewidth = 0.9) +
  geom_segment(aes(x = 0, y = 2, xend = 8,  yend = 0),
               color = "black", linewidth = 0.9) +
  geom_segment(aes(x = 0, y = 3, xend = 12, yend = 0),
               color = "black", linewidth = 0.9) +
  # Curva renda-consumo (tracejada, passa pela origem)
  geom_segment(aes(x = 0, y = 0, xend = 6, yend = 1.5),
               color = "red", linewidth = 0.6, linetype = "dashed") +
  # Pontos ótimos
  geom_point(aes(x = c(2, 4, 6), y = c(0.5, 1, 1.5)),
             color = "red", size = 3.5) +
  # Rótulos dos níveis de renda e utilidade
  annotate("text", x = 2.2, y = 0.7,
           label = latex2exp::TeX(r"($I_1 = 4$)"),
           size = 3.8, hjust = 0) +
  annotate("text", x = 4.2, y = 1.2,
           label = latex2exp::TeX(r"($I_2 = 8$)"),
           size = 3.8, hjust = 0) +
  annotate("text", x = 6.2, y = 1.75,
           label = latex2exp::TeX(r"($I_3 = 12$)"),
           size = 3.8, hjust = 0) +
  annotate("text", x = 9.5, y = 1.1,
           label = latex2exp::TeX(r"($U = 3$)"),
           size = 3.5, color = "blue", hjust = 0) +
  scale_x_continuous(
    expand = c(0, 0),
    limits = c(0, 13),
    breaks = seq(0, 12, 2)
  ) +
  scale_y_continuous(
    expand = c(0, 0),
    limits = c(0, 3.5),
    breaks = seq(0, 3, 1)
  ) +
  labs(
    x = latex2exp::TeX(r"($x$)"),
    y = latex2exp::TeX(r"($y$)"),
    title = latex2exp::TeX(r"((a) Deslocamento paralelo da reta orçamentária)")
  ) +
  theme_minimal() +
  theme(
    axis.line  = element_line(color = "black", linewidth = 0.8),
    panel.grid = element_blank()
  )

# Painel (b): curva de Engel no plano (x^*, I).
# Relação: x^* = 0,5 I / p_x  <=>  I = 2 p_x x^*  (com p_x = 1: I = 2 x^*).
# Pontos: (x^*, I) = (2, 4), (4, 8), (6, 12).
# Eixo horizontal alinhado ao painel (a): 0 a 13.
p_b <- ggplot() +
  geom_abline(slope = 2, intercept = 0,
              color = "red", linewidth = 1) +
  geom_point(aes(x = c(2, 4, 6), y = c(4, 8, 12)),
             color = "red", size = 3.5) +
  annotate("text", x = 2.3, y = 3.0,
           label = latex2exp::TeX(r"($(2, 4)$)"),
           size = 3.8, hjust = 0) +
  annotate("text", x = 4.3, y = 7.0,
           label = latex2exp::TeX(r"($(4, 8)$)"),
           size = 3.8, hjust = 0) +
  annotate("text", x = 6.3, y = 11.0,
           label = latex2exp::TeX(r"($(6, 12)$)"),
           size = 3.8, hjust = 0) +
  annotate("text", x = 1, y = 13.5,
           label = latex2exp::TeX(r"($I = 2 \, p_x \, x^* \Leftrightarrow x^* = 0{,}5 \, I / p_x$)"),
           size = 4.2, color = "red", hjust = 0) +
  scale_x_continuous(
    expand = c(0, 0),
    limits = c(0, 13),
    breaks = seq(0, 12, 2)
  ) +
  scale_y_continuous(
    expand = c(0, 0),
    limits = c(0, 16),
    breaks = seq(0, 16, 4)
  ) +
  labs(
    x = latex2exp::TeX(r"(Quantidade $x^*$)"),
    y = latex2exp::TeX(r"(Renda $I$)"),
    title = latex2exp::TeX(r"((b) Curva de Engel (linear para Cobb-Douglas))")
  ) +
  theme_minimal() +
  theme(
    axis.line  = element_line(color = "black", linewidth = 0.8),
    panel.grid = element_blank()
  )

p_a + p_b

Interpretação

A Cobb-Douglas gera, por construção, apenas bens normais com elasticidade-renda unitária: as frações de gasto são constantes (\(\alpha\) e \(1-\alpha\)), de modo que dobrar a renda dobra exatamente as quantidades demandadas. A curva de Engel resulta linear, passando pela origem. A existência de bens inferiores (\(\partial x^*/\partial I < 0\)) exige preferências não-homotéticas, nas quais a taxa marginal de substituição varia ao longo de um raio saído da origem. Exemplos clássicos: batata vs. carne, ônibus vs. carro, roupa usada vs. nova. À medida que a renda sobe, o consumidor migra para o substituto superior.

A análise de como o consumo responde à renda remonta ao estatístico Ernst Engel (1821–1896), cuja Lei de Engel documentou empiricamente que a fração do orçamento familiar destinada à alimentação diminui à medida que a renda aumenta, mesmo que o gasto absoluto com alimentação cresça. Alimentação tem, portanto, elasticidade-renda positiva mas menor que 1.

A Cobb-Douglas produz frações de gasto constantes, contradizendo frontalmente a Lei de Engel. Por isso, trabalhos aplicados (estimação de sistemas de demanda, análise de pobreza, tributação ótima) adotam formas funcionais mais flexíveis como Stone-Geary, CES generalizada, AIDS e QUAIDS, capazes de acomodar elasticidades-renda variáveis e a distinção empírica entre bens normais, inferiores e de luxo.

Símbolo Significado
ET efeito total \(= \Delta x\) entre cesta inicial (\(A\)) e final (\(C\))
ES efeito substituição — movimento ao longo de \(U_1\) (\(A \to B\))
ER efeito renda — mudança de \(U_1\) para \(U_2\) (\(B \to C\))
\(U_1\) curva de indiferença original (antes da variação de preço)
\(U_2\) curva de indiferença final (após a variação de preço)
\(x_B\) cesta auxiliar — novos preços relativos com utilidade original \(U_1\)
ET = ES + ER identidade de decomposição

Desenvolvimento Teórico

Diferentemente de uma variação na renda (que só desloca paralelamente a reta orçamentária) ou de uma variação proporcional em todos os preços (que não altera nada, pela homogeneidade), uma variação em um único preço \(p_x\) altera simultaneamente a inclinação \(-p_x/p_y\) e a posição da reta orçamentária. A nova cesta ótima pode diferir da anterior por duas razões distintas, que a análise de Hicks propõe separar conceitualmente (Nicholson e Snyder, 2012).

Para isso, a decomposição usa três cestas de referência, que aparecem marcadas nas Figs. 5.3 e 5.4 de Nicholson e Snyder (2012) e no gráfico em R ao final deste callout:

  • Ponto \(A = (x^*_A, y^*_A)\): cesta inicial, escolhida aos preços antigos e com renda \(I\). Situa-se sobre a reta orçamentária original e sobre a curva de indiferença \(U_1\).
  • Ponto \(B = (x_B, y_B)\): cesta auxiliar, construída por um exercício mental. Aos preços novos, mas com a renda ajustada (compensada) de forma que o consumidor ainda atinja a utilidade original \(U_1\). Geometricamente, \(B\) é o ponto de tangência entre \(U_1\) e uma reta orçamentária com a nova inclinação \(-p_x'/p_y\).
  • Ponto \(C = (x^*_C, y^*_C)\): cesta final, efetivamente escolhida aos preços novos com a renda original \(I\). Situa-se sobre a nova reta orçamentária e sobre uma nova curva de indiferença \(U_2\).

O movimento observado no mundo é \(A \to C\) (do antes ao depois da variação de preço). A análise de Hicks insere o ponto \(B\) como um intermediário conceitual que permite decompor esse movimento em duas parcelas:

  1. Efeito substituição (ES), \(A \to B\): mesmo se a renda fosse ajustada (compensada) para manter a utilidade original \(U_1\), o consumidor realocaria sua cesta porque os preços relativos mudaram. Graficamente, isso corresponde a uma reta orçamentária auxiliar paralela à nova reta mas tangente a \(U_1\), cujo ponto de tangência é \(B\). O movimento \(A \to B\) ocorre sempre no sentido contrário à variação do preço: se \(p_x\) sobe, \(x_B < x^*_A\); se \(p_x\) cai, \(x_B > x^*_A\).

  2. Efeito renda (ER), \(B \to C\): removida a compensação hipotética, o consumidor dispõe apenas de sua renda original \(I\) — que agora compra uma cesta menor (alta de preço) ou maior (queda). A reta orçamentária se move paralelamente à auxiliar até a nova reta orçamentária verdadeira, e a cesta ótima se desloca de \(B\) para \(C\), situando-se na nova curva de indiferença \(U_2\). O sinal deste efeito depende de o bem ser normal ou inferior.

A Fig. 5.3 de Nicholson e Snyder (2012) ilustra o caso de uma queda de preço (\(\Delta p_x < 0\)): a reta orçamentária gira para fora no eixo \(x\), o consumidor se move para uma curva de indiferença superior (\(U_2 > U_1\)), e a cesta ótima desloca-se para a direita. A Fig. 5.4 mostra o caso simétrico de alta de preço (\(\Delta p_x > 0\)): a reta gira para dentro, o consumidor se move para uma curva inferior (\(U_2 < U_1\)), e a cesta desloca-se para a esquerda. Em ambos, a reta auxiliar tangente a \(U_1\) isola o efeito substituição.

O sinal de cada efeito segue uma lógica clara (Nicholson e Snyder, 2012):

  • ES tem sinal oposto ao da variação do preço — é uma consequência da curvatura (convexidade) das curvas de indiferença e não depende das preferências específicas.
  • ER tem sinal que depende do tipo de bem. Para bens normais, uma alta de preço reduz a renda real e reduz o consumo de \(x\) (ER negativo) — reforça o ES. Para bens inferiores, uma alta de preço reduz a renda real e aumenta o consumo de \(x\) (ER positivo) — antagoniza o ES. Em casos extremos (bens Giffen), o ER é tão forte que domina o ES, invertendo o sinal do efeito total: a demanda passa a ter inclinação positiva.

Tabela-resumo dos sinais (para queda de preço, \(\Delta p_x < 0\)):

Tipo de bem ES ER ET
Normal \(+\) \(+\) \(+\)
Inferior \(+\) \(-\) indeterminado (em geral \(+\))
Giffen \(+\) \(-\) (forte) \(-\) (demanda sobe quando preço sobe)

Para um aumento de preço (\(\Delta p_x > 0\)), todos os sinais se invertem: ES é negativo para qualquer bem; ER é negativo para normais, positivo para inferiores; e ET é negativo para normais, indeterminado para inferiores, positivo para Giffen.

Exercício Resolvido

Cenário: Cobb-Douglas \(U(x, y) = x^{0{,}5} y^{0{,}5}\), com \(p_y = 4\) e \(I = 8\). O preço \(p_x\) sobe de \(1\) para \(4\).

Passo 1 — cesta inicial (ponto \(A\)). Com \(p_x = 1\), \(p_y = 4\), \(I = 8\), aplicamos as demandas Marshallianas Cobb-Douglas \(x^* = 0{,}5 \, I / p_x\) e \(y^* = 0{,}5 \, I / p_y\) (derivadas em Note 5.2):

\[\begin{aligned} x^*_A &= \frac{0{,}5 \, I}{p_x} = \frac{0{,}5 \cdot 8}{1} = 4 & & \text{demanda Marshalliana de } x \text{ aos preços antigos} \\[6pt] y^*_A &= \frac{0{,}5 \, I}{p_y} = \frac{0{,}5 \cdot 8}{4} = 1 & & \text{demanda Marshalliana de } y \\[6pt] U_1 &= \sqrt{x^*_A \cdot y^*_A} = \sqrt{4 \cdot 1} = 2 & & \text{utilidade no ótimo inicial} \end{aligned}\]

Portanto \(A = (4, 1)\) está sobre a curva de indiferença \(U_1 = 2\), dada por \(y = 4/x\).

Passo 2 — cesta auxiliar (ponto \(B\)). Denote por \((x_B, y_B)\) as quantidades consumidas de \(x\) e \(y\) no ponto \(B\). Este ponto é definido geometricamente como a tangência entre a curva de indiferença original \(U_1 = 2\) e uma reta orçamentária com a nova inclinação \(-p_x'/p_y\). Para localizá-lo, impomos duas condições simultâneas:

  1. tangência aos novos preços: \(TMS = p_x'/p_y\), onde \(p_x' = 4\) é o novo preço;
  2. utilidade constante em \(U_1\): \(U(x_B, y_B) = U_1\).

Para a Cobb-Douglas \(U = x^{0{,}5} y^{0{,}5}\), a taxa marginal de substituição em um par genérico \((x, y)\) é \(TMS = U_x/U_y = y/x\) (derivada em Note 5.2). Avaliando em \(B\), temos \(TMS = y_B/x_B\). O sistema fica:

\[\begin{aligned} \frac{y_B}{x_B} &= \frac{p_x'}{p_y} = \frac{4}{4} = 1 & & \text{(i) tangência em } B \text{ aos novos preços} \\[6pt] \sqrt{x_B \cdot y_B} &= U_1 = 2 & & \text{(ii) } B \text{ sobre a mesma curva de indiferença que } A \end{aligned}\]

Da condição (i): \(y_B/x_B = 1 \Rightarrow y_B = x_B\) (as quantidades de \(x\) e \(y\) em \(B\) são iguais). Substituindo esse resultado na condição (ii) e resolvendo passo a passo:

\[\begin{aligned} \sqrt{x_B \cdot y_B} &= 2 & & \text{condição (ii): utilidade constante em } U_1 \\[6pt] \left(\sqrt{x_B \cdot y_B}\right)^2 &= 2^2 & & \text{elevando ambos os lados ao quadrado} \\[6pt] x_B \cdot y_B &= 4 & & \text{pois } \left(\sqrt{a}\right)^2 = a \text{ e } 2^2 = 4 \\[6pt] x_B \cdot x_B &= 4 & & \text{substituindo } y_B = x_B \text{ da condição (i)} \\[6pt] x_B^2 &= 4 & & \text{pois } x_B \cdot x_B = x_B^2 \\[6pt] x_B &= \sqrt{4} = 2 & & \text{extraindo a raiz quadrada positiva (} x_B > 0 \text{)} \\[6pt] y_B &= x_B = 2 & & \text{pois } y_B = x_B \text{ (tangência) e } x_B = 2 \end{aligned}\]

Portanto \(B = (2, 2)\), sobre \(U_1 = 2\) (verificação: \(\sqrt{2 \cdot 2} = 2\) ✓). A reta orçamentária auxiliar é a que passa por \(B\) com inclinação \(-p_x'/p_y = -1\). Aos novos preços, o gasto em \(B\) é \(4 \cdot 2 + 4 \cdot 2 = 16\), de modo que a reta auxiliar é \(4x + 4y = 16\) — correspondente a uma renda compensada hipotética \(I_{aux} = 16\) (comparada à renda original \(I = 8\)).

Passo 3 — cesta final (ponto \(C\)). Aos novos preços e com a renda original \(I = 8\), aplicamos novamente as demandas Marshallianas \(x^*\) e \(y^*\):

\[\begin{aligned} x^*_C &= \frac{0{,}5 \, I}{p_x} = \frac{0{,}5 \cdot 8}{4} = 1 & & \text{demanda Marshalliana de } x \text{ aos preços novos} \\[6pt] y^*_C &= \frac{0{,}5 \, I}{p_y} = \frac{0{,}5 \cdot 8}{4} = 1 & & \text{demanda Marshalliana de } y \\[6pt] U_2 &= \sqrt{x^*_C \cdot y^*_C} = \sqrt{1 \cdot 1} = 1 & & \text{utilidade no ótimo final (inferior a } U_1\text{)} \end{aligned}\]

Portanto \(C = (1, 1)\) está sobre a curva de indiferença \(U_2 = 1\), dada por \(y = 1/x\). Como esperado para uma alta de preço, \(U_2 < U_1\): o consumidor fica em pior situação.

Passo 4 — decomposição do efeito sobre \(x\):

\[\begin{aligned} \text{ES} &= x_B - x^*_A = 2 - 4 = -2 & & \text{efeito substituição } (A \to B) \\[6pt] \text{ER} &= x^*_C - x_B = 1 - 2 = -1 & & \text{efeito renda } (B \to C) \\[6pt] \text{ET} &= x^*_C - x^*_A = 1 - 4 = -3 & & \text{efeito total } (A \to C) \end{aligned}\]

Verificação numérica: \(\text{ES} + \text{ER} = -2 + (-1) = -3 = \text{ET}\) ✓.

Ambos os efeitos são negativos, confirmando que \(x\) é um bem normal na Cobb-Douglas: a alta de preço reduz o consumo de \(x\) tanto pelo canal da substituição (fica relativamente mais caro que \(y\)) quanto pelo canal da renda (a renda real cai, e por ser normal, menos \(x\) é demandado). Os dois efeitos se reforçam, produzindo uma variação total grande (\(-3\) em uma cesta inicial de \(4\), ou seja, uma queda de 75%).

Implementação em R

Código
# Réplica da Fig 5.4 de Nicholson — aumento de preço p_x: 1 -> 4
# Curvas de indiferença Cobb-Douglas U = sqrt(xy) => y = U^2/x
#   U_1 = 2 => y = 4/x (curva original, passa por A = (4,1) e B = (2,2))
#   U_2 = 1 => y = 1/x (curva final,    passa por C = (1,1))
# Retas orçamentárias:
#   Original (p_x=1, p_y=4, I=8):  x + 4y = 8   -> de (0,2) a (8,0)
#   Nova     (p_x=4, p_y=4, I=8):  4x + 4y = 8  -> de (0,2) a (2,0)
#   Auxiliar (novos preços, renda compensada I_aux = 16, tangente a U_1 em B):
#              4x + 4y = 16 -> de (0,4) a (4,0)

ggplot() +
  # Eixos explícitos em x = 0 e y = 0 (retas orçamentárias terminam em y = 0,
  # enquanto o painel se estende até y = -0,8 para acomodar os colchetes ES/ER)
  geom_hline(yintercept = 0, color = "black", linewidth = 0.8) +
  geom_vline(xintercept = 0, color = "black", linewidth = 0.8) +
  # Curvas de indiferença
  geom_function(fun = \(x) 4 / x, xlim = c(0.35, 8.5),
                color = "blue", linewidth = 0.9) +
  geom_function(fun = \(x) 1 / x, xlim = c(0.15, 8.5),
                color = "blue", linewidth = 0.9) +
  # Reta orçamentária original: x + 4y = 8
  geom_segment(aes(x = 0, y = 2, xend = 8, yend = 0),
               color = "black", linewidth = 0.9) +
  # Nova reta orçamentária: 4x + 4y = 8 (mais íngreme)
  geom_segment(aes(x = 0, y = 2, xend = 2, yend = 0),
               color = "black", linewidth = 0.9) +
  # Reta auxiliar (renda compensada): 4x + 4y = 16, tangente a U_1 em B
  geom_segment(aes(x = 0, y = 4, xend = 4, yend = 0),
               color = "gray40", linewidth = 0.7, linetype = "dashed") +
  # Pontos A, B, C
  geom_point(aes(x = 4, y = 1), color = "red",       size = 3.5) +
  geom_point(aes(x = 2, y = 2), color = "darkgreen", size = 3.5) +
  geom_point(aes(x = 1, y = 1), color = "purple",    size = 3.5) +
  # Rótulos dos pontos
  annotate("text", x = 4.35, y = 1.25, label = "A = (4, 1)",
           color = "red",       size = 4, hjust = 0) +
  annotate("text", x = 2.25, y = 2.30, label = "B = (2, 2)",
           color = "darkgreen", size = 4, hjust = 0) +
  annotate("text", x = 1.25, y = 1.30, label = "C = (1, 1)",
           color = "purple",    size = 4, hjust = 0) +
  # Rótulos das curvas de indiferença
  annotate("text", x = 7.6, y = 4 / 7.6 + 0.25,
           label = latex2exp::TeX(r"($U_1 = 2$)"),
           color = "blue", size = 4, hjust = 0) +
  annotate("text", x = 7.6, y = 1 / 7.6 + 0.25,
           label = latex2exp::TeX(r"($U_2 = 1$)"),
           color = "blue", size = 4, hjust = 0) +
  # Caixa com parâmetros do exercício no canto superior direito
  annotate("rect", xmin = 5.15, xmax = 8.95,
           ymin = 2.25, ymax = 4.92,
           fill = "grey97", color = "grey60",
           linewidth = 0.3, alpha = 0.9) +
  annotate("text", x = 5.35, y = 4.70,
           label = "Parâmetros:",
           hjust = 0, size = 3.8, fontface = "bold") +
  annotate("text", x = 5.35, y = 4.37,
           label = latex2exp::TeX(r"($U(x, y) = \sqrt{x \, y}$)"),
           hjust = 0, size = 3.6) +
  annotate("text", x = 5.35, y = 4.07,
           label = latex2exp::TeX(r"($p_y = 4, \; I = 8$)"),
           hjust = 0, size = 3.6) +
  annotate("text", x = 5.35, y = 3.77,
           label = latex2exp::TeX(r"($p_x: 1 \rightarrow 4$ \ (\it{aumento}))"),
           hjust = 0, size = 3.6) +
  annotate("text", x = 5.35, y = 3.35,
           label = "Retas orçamentárias:",
           hjust = 0, size = 3.8, fontface = "bold") +
  annotate("text", x = 5.35, y = 3.05,
           label = latex2exp::TeX(r"(Original: $1x + 4y = 8$)"),
           hjust = 0, size = 3.4) +
  annotate("text", x = 5.35, y = 2.75,
           label = latex2exp::TeX(r"(Nova: $4x + 4y = 8$)"),
           hjust = 0, size = 3.4) +
  annotate("text", x = 5.35, y = 2.45,
           label = latex2exp::TeX(r"(Auxiliar: $4x + 4y = 16$ \ (\it{pontilhada}))"),
           hjust = 0, size = 3.4) +
  # Projeções tracejadas dos pontos até o eixo x
  geom_segment(aes(x = 1, y = 0, xend = 1, yend = 1),
               color = "purple",    linewidth = 0.4, linetype = "dotted") +
  geom_segment(aes(x = 2, y = 0, xend = 2, yend = 2),
               color = "darkgreen", linewidth = 0.4, linetype = "dotted") +
  geom_segment(aes(x = 4, y = 0, xend = 4, yend = 1),
               color = "red",       linewidth = 0.4, linetype = "dotted") +
  # Colchete ES: de x_B = 2 a x*_A = 4 (efeito substituição)
  annotate("segment", x = 2, xend = 4, y = -0.35, yend = -0.35,
           color = "darkgreen", linewidth = 0.8,
           arrow = arrow(ends = "both", length = unit(0.15, "cm"))) +
  annotate("text", x = 3, y = -0.60,
           label = latex2exp::TeX(r"(ES $= -2$)"),
           color = "darkgreen", size = 3.8) +
  # Colchete ER: de x*_C = 1 a x_B = 2 (efeito renda)
  annotate("segment", x = 1, xend = 2, y = -0.35, yend = -0.35,
           color = "purple", linewidth = 0.8,
           arrow = arrow(ends = "both", length = unit(0.15, "cm"))) +
  annotate("text", x = 1.5, y = -0.60,
           label = latex2exp::TeX(r"(ER $= -1$)"),
           color = "purple", size = 3.8) +
  scale_x_continuous(
    expand = c(0, 0),
    limits = c(0, 9),
    breaks = seq(0, 8, 1)
  ) +
  scale_y_continuous(
    expand = c(0, 0),
    limits = c(-0.8, 5),
    breaks = seq(0, 5, 1)
  ) +
  labs(
    x = latex2exp::TeX(r"($x$)"),
    y = latex2exp::TeX(r"($y$)"),
    title = latex2exp::TeX(r"(Decomposição: aumento de preço $p_x$: $1 \to 4$)")
  ) +
  theme_minimal() +
  theme(
    axis.line  = element_blank(),
    panel.grid = element_blank()
  )

Interpretação

No Cobb-Douglas acima, ES e ER têm o mesmo sinal (ambos negativos), resultado típico de bens normais: os dois canais se reforçam e a demanda Marshalliana fica descendente. Para bens inferiores, o ER inverte de sinal e atenua parcialmente o ES, mas o efeito total permanece quase sempre negativo; a demanda simplesmente responde menos a preços.

O caso extremo é o bem Giffen, que exige três condições simultâneas: (i) inferioridade, (ii) participação alta no orçamento e (iii) ER maior que ES em magnitude. A atribuição clássica (Robert Giffen, 1837–1910) associa esse padrão ao consumo de batata na Irlanda durante a fome de 1845–1849, mas reanálises modernas consideram a evidência empírica frágil. O caso mais sólido documentado é o de Jensen e Miller (2008), sobre arroz e trigo em regiões rurais da China.

A análise gráfica deste callout trata de variações discretas de preço. Para variações infinitesimais, a mesma lógica se formaliza na equação de Slutsky (Note 5.6), que expressa \(\partial x/\partial p_x\) como soma dos componentes de substituição e renda sem recorrer à cesta auxiliar. A decomposição também motiva a distinção entre as duas formas de demanda: a Marshalliana (Note 5.4), que mantém a renda fixa e incorpora ambos os efeitos, e a Hicksiana (Note 5.5), que mantém a utilidade fixa e isola o efeito substituição.

Símbolo Significado
\(x^*(p_x; \bar{p}_y, \bar{I})\) curva de demanda individual (com \(p_y\) e \(I\) fixos)
Marshalliana / ordinária demanda obtida do problema primal de maximização de utilidade
\(\partial x^*/\partial p_x\) inclinação da curva; \(< 0\) para bens normais (e inferiores comuns)
movimento ao longo apenas \(p_x\) varia — consumidor desliza sobre a mesma curva
deslocamento mudança em \(\bar{p}_y\), \(\bar{I}\) ou preferências — a curva toda se move

Desenvolvimento Teórico

A curva de demanda individual do bem \(x\) relaciona o preço \(p_x\) à quantidade ótima \(x^*\), mantendo constantes \(\bar{p}_y\), \(\bar{I}\) e as preferências. Formalmente, é a função \(x^*(p_x; \bar{p}_y, \bar{I})\), uma seção da demanda Marshalliana completa \(x^*(p_x, p_y, I)\) em que apenas o primeiro argumento varia (Nicholson e Snyder, 2012).

Operacionalmente, constrói-se a curva repetindo a maximização para diferentes valores de \(p_x\): cada preço produz uma nova reta orçamentária (intercepto vertical fixo \(\bar{I}/\bar{p}_y\) e horizontal variável \(\bar{I}/p_x\)), uma nova tangência e, portanto, uma nova cesta ótima. Projetando cada par \((p_x, x^*)\) no plano preço-quantidade obtém-se a curva. A Fig. 5.5 de Nicholson e Snyder (2012) ilustra a construção em dois painéis: mapa de indiferença acima, curva de demanda abaixo.

Exercício Resolvido

Cenário: Cobb-Douglas \(U(x, y) = x^{0{,}5} y^{0{,}5}\), com \(p_y = 4\) e \(I = 8\) fixos. Queremos obter a curva de demanda \(x^*(p_x)\) variando apenas \(p_x\).

Partindo da demanda Marshalliana Cobb-Douglas:

\[\begin{aligned} x^*(p_x, p_y, I) &= \frac{0{,}5 \, I}{p_x} & & \text{forma geral Cobb-Douglas} \\[6pt] x^*(p_x; \bar{p}_y = 4, \bar{I} = 8) &= \frac{0{,}5 \cdot 8}{p_x} & & \text{substituindo } I = 8 \\[6pt] &= \frac{4}{p_x} & & \text{curva de demanda individual} \end{aligned}\]

A curva \(x^*(p_x) = 4/p_x\) é uma hipérbole retangular no plano preço-quantidade. Observe, além disso, uma característica peculiar da Cobb-Douglas: o gasto com \(x\) é constante, independentemente do preço:

\[p_x \cdot x^*(p_x) = p_x \cdot \frac{0{,}5 \, I}{p_x} = 0{,}5 \, I = 4\]

Ou seja, o consumidor sempre destina metade de sua renda ao bem \(x\) — seja \(p_x\) alto ou baixo. Dito de outro modo: a elasticidade-preço da demanda é unitária em toda a curva. Quando \(p_x\) dobra, \(x^*\) cai pela metade; quando \(p_x\) cai pela metade, \(x^*\) dobra — e o produto \(p_x x^*\) permanece em \(4\).

O mesmo raciocínio aplicado a \(y\) mostra que \(y^* = 0{,}5 \cdot 8 / 4 = 1\) não depende de \(p_x\) — a demanda por \(y\) é invariante ao preço de \(x\). Esse é outro reflexo da Cobb-Douglas: os dois bens não são substitutos nem complementos (as elasticidades-preço cruzadas são nulas).

Tabela de pares \((p_x, x^*, y^*,\) gasto\()\):

\(p_x\) \(x^* = 4/p_x\) \(y^*\) Gasto em \(x\): \(p_x x^*\) Gasto em \(y\): \(p_y y^*\)
0,5 8 1 4 4
1 4 1 4 4
2 2 1 4 4
4 1 1 4 4

Em todos os cenários o consumidor destina \(4\) unidades monetárias a cada bem — é exatamente a fração de gasto constante (\(\alpha = 1 - \alpha = 0{,}5\)) que caracteriza a Cobb-Douglas.

Implementação em R

Código
# Réplica da Fig 5.5 de Nicholson — derivação da curva de demanda Marshalliana.
# Cobb-Douglas U = sqrt(xy), com p_y = 4, I = 8 fixos; p_x varia em {0,5; 1; 2}.
# Demandas:  x* = 0,5*I/p_x = 4/p_x ;  y* = 0,5*I/p_y = 1  (constante!)
#
# Pontos ótimos no mapa (x, y):
#   p_x = 0,5 => (x*, y*) = (8, 1) ; U = sqrt(8) ≈ 2,83 => curva y = 8/x
#   p_x = 1   => (x*, y*) = (4, 1) ; U = 2            => curva y = 4/x
#   p_x = 2   => (x*, y*) = (2, 1) ; U = sqrt(2) ≈ 1,41 => curva y = 2/x
#
# Retas orçamentárias (rotacionando em torno de (0, I/p_y) = (0, 2)):
#   p_x = 0,5 => de (0, 2) a (16, 0)
#   p_x = 1   => de (0, 2) a (8,  0)
#   p_x = 2   => de (0, 2) a (4,  0)

# Painel (a): mapa de indiferença com 3 retas orçamentárias e 3 tangências
p_a <- ggplot() +
  # Curvas de indiferença (uma para cada nível de utilidade ótima)
  geom_function(fun = \(x) 8 / x, xlim = c(2.8, 14),
                color = "blue", linewidth = 0.8) +
  geom_function(fun = \(x) 4 / x, xlim = c(1.5, 14),
                color = "blue", linewidth = 0.8) +
  geom_function(fun = \(x) 2 / x, xlim = c(0.75, 14),
                color = "blue", linewidth = 0.8) +
  # Retas orçamentárias (rotação em torno de (0, 2))
  geom_segment(aes(x = 0, y = 2, xend = 16, yend = 0),
               color = "black", linewidth = 0.8) +
  geom_segment(aes(x = 0, y = 2, xend = 8,  yend = 0),
               color = "black", linewidth = 0.8) +
  geom_segment(aes(x = 0, y = 2, xend = 4,  yend = 0),
               color = "black", linewidth = 0.8) +
  # Pontos ótimos (todos com y* = 1)
  geom_point(aes(x = c(8, 4, 2), y = c(1, 1, 1)),
             color = "red", size = 3.5) +
  # Projeções verticais dos pontos ótimos até o eixo x
  geom_segment(aes(x = 8, y = 0, xend = 8, yend = 1),
               color = "red", linewidth = 0.4, linetype = "dotted") +
  geom_segment(aes(x = 4, y = 0, xend = 4, yend = 1),
               color = "red", linewidth = 0.4, linetype = "dotted") +
  geom_segment(aes(x = 2, y = 0, xend = 2, yend = 1),
               color = "red", linewidth = 0.4, linetype = "dotted") +
  # Rótulos dos pontos ótimos
  annotate("text", x = 8.3, y = 1.35,
           label = latex2exp::TeX(r"($p_x = 0{,}5$: $(8, 1)$)"),
           size = 3.8, color = "red", hjust = 0) +
  annotate("text", x = 4.3, y = 1.55,
           label = latex2exp::TeX(r"($p_x = 1$: $(4, 1)$)"),
           size = 3.8, color = "red", hjust = 0) +
  annotate("text", x = 2.3, y = 1.75,
           label = latex2exp::TeX(r"($p_x = 2$: $(2, 1)$)"),
           size = 3.8, color = "red", hjust = 0) +
  # Rótulo do intercepto vertical comum
  annotate("text", x = 0.25, y = 2.25,
           label = latex2exp::TeX(r"($I/p_y = 2$)"),
           size = 3.5, hjust = 0) +
  scale_x_continuous(
    expand = c(0, 0),
    limits = c(0, 17),
    breaks = c(0, 2, 4, 6, 8, 10, 12, 14, 16)
  ) +
  scale_y_continuous(
    expand = c(0, 0),
    limits = c(0, 3),
    breaks = seq(0, 3, 1)
  ) +
  labs(
    x = latex2exp::TeX(r"($x$)"),
    y = latex2exp::TeX(r"($y$)"),
    title = latex2exp::TeX(r"((a) Mapa de indiferença ($p_y = 4$, $I = 8$))")
  ) +
  theme_minimal() +
  theme(
    axis.line  = element_line(color = "black", linewidth = 0.8),
    panel.grid = element_blank()
  )

# Painel (b): curva de demanda Marshalliana no plano (x, p_x).
# x*(p_x) = 4/p_x   <=>   p_x = 4/x  no plano com p_x no eixo vertical.
# Três pontos: (x, p_x) = (8; 0,5), (4; 1), (2; 2).
# Eixo x alinhado ao painel (a): 0 a 17, breaks a cada 2.
p_b <- ggplot() +
  geom_function(fun = \(x) 4 / x, xlim = c(0.4, 16.5),
                color = "red", linewidth = 1.1) +
  geom_point(aes(x = c(8, 4, 2), y = c(0.5, 1, 2)),
             color = "red", size = 3.5) +
  # Rótulos dos pontos
  annotate("text", x = 8.3, y = 0.75,
           label = latex2exp::TeX(r"($(8;\ 0{,}5)$)"),
           size = 3.8, color = "red", hjust = 0) +
  annotate("text", x = 4.3, y = 1.25,
           label = latex2exp::TeX(r"($(4;\ 1)$)"),
           size = 3.8, color = "red", hjust = 0) +
  annotate("text", x = 2.3, y = 2.30,
           label = latex2exp::TeX(r"($(2;\ 2)$)"),
           size = 3.8, color = "red", hjust = 0) +
  # Equação da curva
  annotate("text", x = 8, y = 3.2,
           label = latex2exp::TeX(r"($x^*(p_x) = 4/p_x$)"),
           size = 4.5, color = "red", hjust = 0) +
  scale_x_continuous(
    expand = c(0, 0),
    limits = c(0, 17),
    breaks = c(0, 2, 4, 6, 8, 10, 12, 14, 16)
  ) +
  scale_y_continuous(
    expand = c(0, 0),
    limits = c(0, 4),
    breaks = seq(0, 4, 1)
  ) +
  labs(
    x = latex2exp::TeX(r"(Quantidade $x$)"),
    y = latex2exp::TeX(r"(Preço $p_x$)"),
    title = latex2exp::TeX(r"((b) Curva de demanda Marshalliana)")
  ) +
  theme_minimal() +
  theme(
    axis.line  = element_line(color = "black", linewidth = 0.8),
    panel.grid = element_blank()
  )

# Empilhar verticalmente (p_a em cima, p_b embaixo)
p_a / p_b

Interpretação

A inclinação descendente da curva de demanda é consequência direta da maximização de utilidade sob preferências convexas, não um postulado adicional da teoria. Para bens normais, efeito substituição e efeito renda (Note 5.3) têm o mesmo sinal e se reforçam. Para bens inferiores comuns, o ES ainda domina o ER invertido, e a demanda segue descendente. Apenas no caso Giffen a inclinação se inverte, situação empiricamente rara.

A curva Cobb-Douglas é uma hipérbole retangular (\(p_x x^* = 4\)), consequência direta da fração de gasto constante (\(\alpha/(\alpha+\beta) = 0{,}5\)); equivale a dizer que a elasticidade-preço é unitária em todo ponto. Formas como CES ou Stone-Geary produzem elasticidades variáveis ao longo da curva. Vale também distinguir variação da quantidade demandada (movimento ao longo da curva, só \(p_x\) muda) de variação da demanda (deslocamento provocado por mudanças em \(\bar{I}\), \(\bar{p}_y\) ou preferências). Pela homogeneidade de grau zero (Note 5.1), uma variação proporcional em \(\bar{I}\) e \(\bar{p}_y\) não desloca a curva.

A Marshalliana incorpora ambos os efeitos, substituição e renda. A Hicksiana (Note 5.5), objeto do próximo callout, isola apenas a substituição, respondendo “quanto de \(x\) o consumidor demandaria a cada preço se fosse compensado para manter a mesma utilidade?”. A diferença vertical entre as duas curvas, no plano preço-quantidade, é o efeito renda.

Símbolo Significado
\(x^c(p_x, p_y, U)\) demanda compensada (Hicksiana) do bem \(x\)
\(E(p_x, p_y, U)\) função de despesa mínima para atingir a utilidade \(U\)
\(\mathscr{L} = p_x x + p_y y + \lambda[\bar{U} - U(x,y)]\) Lagrangiana do problema dual
\(\partial E/\partial p_x = x^c\) lema de Shephard

Desenvolvimento Teórico

Para cada problema de maximização há um dual simétrico de minimização. No consumidor, o primal é a maximização de utilidade sujeita à restrição orçamentária; o dual é a minimização da despesa sujeita a uma restrição de utilidade mínima. Formalmente,

\[\min_{x, y} \; p_x x + p_y y \quad \text{s.a.} \quad U(x, y) \geq \bar{U}.\]

Sua solução define a demanda compensada (Hicksiana) \(x^c(p_x, p_y, \bar{U})\), e o valor mínimo da função objetivo no ótimo é a função de despesa \(E(p_x, p_y, \bar{U}) = p_x x^c + p_y y^c\). Enquanto a Marshalliana tem a renda \(I\) como argumento, a Hicksiana tem a utilidade \(\bar{U}\) — é essa diferença que isola o efeito substituição: ao variar \(p_x\) com \(\bar{U}\) fixo, a renda é ajustada implicitamente para manter o consumidor na mesma curva de indiferença, e a variação da cesta reflete apenas a mudança nos preços relativos. As Figs. 5.6 e 5.7 de Nicholson e Snyder (2012) ilustram a derivação geométrica e a comparação com a Marshalliana.

A Lagrangiana do dual é

\[\mathscr{L} = p_x x + p_y y + \lambda[\bar{U} - U(x, y)],\]

e as condições de primeira ordem produzem \(x^c\) e \(y^c\) em função de \((p_x, p_y, \bar{U})\). Na prática, é raro resolver o dual diretamente: o caminho eficiente começa pela função de despesa \(E(p_x, p_y, U)\) e aplica o lema de Shephard.

Lema de Shephard — enunciado, intuição e utilidade prática

O lema de Shephard é um atalho analítico para obter a demanda Hicksiana a partir da função de despesa, sem resolver o Lagrangiano do problema dual. Ele afirma que a derivada da função de despesa em relação ao preço de um bem é a própria função de demanda compensada daquele bem:

\[\boxed{\frac{\partial E(p_x, p_y, U)}{\partial p_x} = x^c(p_x, p_y, U)}\]

Em outras palavras: se conhecemos a função de despesa \(E(p_x, p_y, U)\), basta derivá-la em \(p_x\) para obter diretamente a curva de demanda Hicksiana de \(x\), expressa como função dos preços e da utilidade. Não é apenas um valor numérico pontual: o resultado \(\partial E/\partial p_x\) já é a função \(x^c(p_x, p_y, U)\) válida para quaisquer \((p_x, p_y, U)\).

Intuição. Quando \(p_x\) aumenta, há dois efeitos sobre a despesa total. O efeito direto: cada unidade de \(x\) já consumida fica mais cara, somando \(x^c\) à despesa. O efeito indireto: o consumidor reotimiza a cesta, realocando consumo entre \(x\) e \(y\) para manter a mesma utilidade \(\bar{U}\). O lema diz que, no ponto ótimo, o efeito indireto é zero: a reotimização não gera ganho nem perda em primeira ordem, porque a cesta inicial já era ótima. Resta apenas o efeito direto, \(x^c\).

Para que serve na prática:

  1. Se \(E\) já é conhecida, obtém-se \(x^c\) por uma simples derivada, evitando resolver o sistema de CPOs do dual.
  2. Garante que a demanda compensada tem inclinação não-positiva (\(\partial x^c/\partial p_x = \partial^2 E/\partial p_x^2 \leq 0\)), consequência da concavidade de \(E\) em preços.
  3. Conecta diretamente a função de despesa (observável em princípio) às quantidades demandadas, o que é a base para medidas de bem-estar como variação compensatória e equivalente.

No problema primal (maximização de utilidade), o resultado análogo é a identidade de Roy: \(x^* = -(\partial V/\partial p_x) / (\partial V/\partial I)\), onde \(V\) é a utilidade indireta. Ambos são casos do teorema do envelope aplicado a problemas de otimização condicionada.

Demonstração via teorema do envelope

Por definição, no ponto ótimo a despesa mínima é

\[E(p_x, p_y, U) = p_x \, x^c(p_x, p_y, U) + p_y \, y^c(p_x, p_y, U).\]

Derivando em relação a \(p_x\) pela regra do produto (com \(p_y\) e \(U\) constantes):

\[\begin{aligned} \frac{\partial E}{\partial p_x} &= \underbrace{x^c}_{\text{efeito direto}} + \underbrace{p_x \cdot \frac{\partial x^c}{\partial p_x} + p_y \cdot \frac{\partial y^c}{\partial p_x}}_{\text{efeito indireto}} & & \text{regra do produto} \end{aligned}\]

Falta mostrar que o efeito indireto se anula no ótimo. Usamos dois fatos:

  1. A restrição \(U(x^c, y^c) = \bar{U}\) vale para qualquer \(p_x\). Derivando em \(p_x\): \[U_x \cdot \frac{\partial x^c}{\partial p_x} + U_y \cdot \frac{\partial y^c}{\partial p_x} = 0 \qquad (*)\]

  2. As condições de primeira ordem do problema dual (da Lagrangiana acima) implicam \(p_x = \lambda U_x\) e \(p_y = \lambda U_y\) no ótimo.

Substituindo (2) em \((*)\) e multiplicando por \(\lambda\):

\[\begin{aligned} p_x \cdot \frac{\partial x^c}{\partial p_x} + p_y \cdot \frac{\partial y^c}{\partial p_x} &= \lambda U_x \cdot \frac{\partial x^c}{\partial p_x} + \lambda U_y \cdot \frac{\partial y^c}{\partial p_x} & & \text{usando CPOs} \\[6pt] &= \lambda \left( U_x \cdot \frac{\partial x^c}{\partial p_x} + U_y \cdot \frac{\partial y^c}{\partial p_x} \right) & & \text{fatorando } \lambda \\[6pt] &= \lambda \cdot 0 = 0 & & \text{usando } (*) \end{aligned}\]

O efeito indireto é exatamente zero. Portanto:

\[\frac{\partial E}{\partial p_x} = x^c + 0 = x^c \quad \checkmark\]

Este é um caso particular do teorema do envelope (Nicholson e Snyder, 2012): ao derivar uma função de valor (aqui, \(E\)) em relação a um parâmetro (aqui, \(p_x\)), os ajustes endógenos ótimos (aqui, em \(x^c\) e \(y^c\)) cancelam-se mutuamente, restando apenas a derivada parcial direta da Lagrangiana em relação ao parâmetro.

Sentido econômico. Quando \(p_x\) sobe marginalmente, o consumidor sofre dois impactos. Primeiro, cada unidade de \(x\) que ele já consome fica mais cara, acrescentando \(x^c\) à despesa total (efeito direto). Segundo, ele reotimiza a cesta: compra menos \(x\) e mais \(y\) para continuar atingindo \(\bar{U}\) ao menor custo possível (efeito indireto). Mas essa reotimização é uma resposta de alguém que já estava no ótimo: qualquer troca marginal entre \(x\) e \(y\) ao longo da curva de indiferença \(\bar{U}\) não gera economia líquida, porque na tangência o custo marginal de substituir \(x\) por \(y\) é exatamente igual ao preço relativo. A reotimização, portanto, não altera a despesa em primeira ordem. O resultado prático é que, para prever quanto a despesa mínima muda com uma pequena variação de preço, basta multiplicar a variação pela quantidade atualmente consumida do bem, sem precisar recalcular toda a cesta ótima.

Propriedades da função de despesa

Do lema de Shephard seguem duas propriedades que são usadas repetidamente na análise da demanda Hicksiana:

  1. \(E\) é não-decrescente em preços. Aumentos de preço nunca reduzem o custo mínimo de atingir uma dada utilidade, o que implica \(x^c = \partial E/\partial p_x \geq 0\) (quantidades compensadas são não-negativas).

  2. \(E\) é côncava em preços. A segunda derivada satisfaz \(\partial^2 E/\partial p_x^2 \leq 0\). Como pelo lema \(\partial E/\partial p_x = x^c\), segue \(\partial x^c/\partial p_x = \partial^2 E/\partial p_x^2 \leq 0\). A inclinação da Hicksiana é, portanto, sempre não-positiva.

Resolução direta via Lagrangiano (caso geral)

Embora o lema de Shephard seja o caminho mais eficiente quando \(E\) é conhecida, a resolução direta via Lagrangiano explicita a estrutura do problema dual e sua relação com o primal.

Passo 1 — Lagrangiana e condições de primeira ordem. Partindo da Lagrangiana \(\mathscr{L} = p_x x + p_y y + \lambda[\bar{U} - U(x, y)]\), igualamos as derivadas parciais a zero:

\[\begin{aligned} \frac{\partial \mathscr{L}}{\partial x} &= p_x - \lambda \, U_x = 0 & & \text{(CPO 1): preço = } \lambda \times \text{utilidade marginal de } x \\[6pt] \frac{\partial \mathscr{L}}{\partial y} &= p_y - \lambda \, U_y = 0 & & \text{(CPO 2): preço = } \lambda \times \text{utilidade marginal de } y \\[6pt] \frac{\partial \mathscr{L}}{\partial \lambda} &= \bar{U} - U(x, y) = 0 & & \text{(CPO 3): restrição de utilidade} \end{aligned}\]

Passo 2 — tangência. Das CPOs 1 e 2, \(p_x = \lambda U_x\) e \(p_y = \lambda U_y\). Dividindo CPO 1 pela CPO 2:

\[\begin{aligned} \frac{p_x}{p_y} &= \frac{\lambda \, U_x}{\lambda \, U_y} & & \text{razão das CPOs} \\[6pt] &= \frac{U_x}{U_y} = TMS & & \lambda \text{ se cancela} \end{aligned}\]

Esta é a mesma condição de tangência do problema primal (maximização de utilidade sujeita à restrição orçamentária, ver Note 5.4). A diferença entre primal e dual está na terceira equação do sistema:

Problema CPO 1 e 2 (tangência) CPO 3 (restrição)
Primal (max utilidade) \(TMS = p_x / p_y\) \(p_x x + p_y y = I\)
Dual (min despesa) \(TMS = p_x / p_y\) \(U(x, y) = \bar{U}\)

Passo 3 — sistema de equações. O sistema a resolver é:

\[\begin{cases} U_x / U_y = p_x / p_y & \text{(tangência: inclinação da CI = inclinação da reta)} \\ U(x, y) = \bar{U} & \text{(utilidade fixa no nível de referência)} \end{cases}\]

São 2 equações e 2 incógnitas (\(x^c\) e \(y^c\)). A solução produz as demandas compensadas \(x^c(p_x, p_y, \bar{U})\) e \(y^c(p_x, p_y, \bar{U})\). A forma funcional concreta depende da especificação de \(U\); o Exercício Resolvido a seguir aplica este procedimento à Cobb-Douglas.

Exercício Resolvido

Cenário: Cobb-Douglas \(U(x, y) = x^{0{,}5} y^{0{,}5}\), preços \(p_x\) e \(p_y\), utilidade-alvo \(\bar{U}\). Resolvemos o problema dual por Lagrangiano e depois verificamos o resultado pelo lema de Shephard.

Resolução via Lagrangiano

Passo 1 — montar o Lagrangiano do problema dual.

\[\mathscr{L} = p_x x + p_y y + \lambda\bigl[\bar{U} - x^{0{,}5} y^{0{,}5}\bigr]\]

Passo 2 — condições de primeira ordem.

\[\begin{aligned} \frac{\partial \mathscr{L}}{\partial x} &= p_x - \lambda \cdot 0{,}5 \, x^{-0{,}5} \, y^{0{,}5} = 0 & & \text{(CPO 1)} \\[6pt] \frac{\partial \mathscr{L}}{\partial y} &= p_y - \lambda \cdot 0{,}5 \, x^{0{,}5} \, y^{-0{,}5} = 0 & & \text{(CPO 2)} \\[6pt] \frac{\partial \mathscr{L}}{\partial \lambda} &= \bar{U} - x^{0{,}5} y^{0{,}5} = 0 & & \text{(CPO 3): restrição de utilidade} \end{aligned}\]

Passo 3 — dividir CPO 1 pela CPO 2 para eliminar \(\lambda\).

\[\begin{aligned} \frac{p_x}{p_y} &= \frac{0{,}5 \, x^{-0{,}5} \, y^{0{,}5}}{0{,}5 \, x^{0{,}5} \, y^{-0{,}5}} & & \text{razão das CPOs 1 e 2} \\[6pt] \frac{p_x}{p_y} &= \frac{y^{0{,}5 - (-0{,}5)}}{x^{0{,}5 - (-0{,}5)}} = \frac{y}{x} & & \text{simplificando expoentes} \end{aligned}\]

Isolando \(y\):

\[y = \frac{p_x}{p_y} \, x \qquad \text{(relação de tangência no dual)}\]

Note que esta é a mesma condição \(TMS = p_x/p_y\) obtida na maximização de utilidade. A diferença é que agora a segunda equação é a restrição de utilidade (CPO 3), não a restrição orçamentária.

Passo 4 — substituir na restrição de utilidade (CPO 3) para obter a função de demanda Hicksiana.

\[\begin{aligned} x^{0{,}5} \, y^{0{,}5} &= \bar{U} & & \text{CPO 3} \\[6pt] x^{0{,}5} \left(\frac{p_x}{p_y} \, x\right)^{0{,}5} &= \bar{U} & & \text{substituindo } y = (p_x/p_y) x \\[6pt] x^{0{,}5} \cdot \left(\frac{p_x}{p_y}\right)^{0{,}5} \cdot x^{0{,}5} &= \bar{U} & & \text{distribuindo o expoente} \\[6pt] x \cdot \left(\frac{p_x}{p_y}\right)^{0{,}5} &= \bar{U} & & \text{pois } x^{0{,}5} \cdot x^{0{,}5} = x \\[6pt] x^c &= \bar{U} \cdot \left(\frac{p_y}{p_x}\right)^{0{,}5} & & \text{isolando } x \\[6pt] x^c &= p_x^{-0{,}5} \, p_y^{0{,}5} \, \bar{U} & & \text{reescrevendo com expoentes} \end{aligned}\]

\[\boxed{x^c(p_x, p_y, U) = p_x^{-0{,}5} \, p_y^{0{,}5} \, U}\]

Esta é a função de demanda Hicksiana (compensada) de \(x\): expressa a quantidade ótima como função dos preços e do nível de utilidade fixado \(\bar{U}\), válida para quaisquer \((p_x, p_y, U)\). Compare com a Marshalliana \(x^* = 0{,}5 \, I/p_x\) (ver Note 5.4): enquanto a Marshalliana depende da renda \(I\), a Hicksiana depende de \(\bar{U}\).

Por simetria (trocando os papéis de \(x\) e \(y\)), a demanda compensada de \(y\) é \(y^c = p_x^{0{,}5} \, p_y^{-0{,}5} \, U\).

Função de despesa

Substituindo \(x^c\) e \(y^c\) na despesa total:

\[\begin{aligned} E &= p_x \, x^c + p_y \, y^c & & \text{gasto total na cesta compensada} \\[6pt] &= p_x \cdot p_x^{-0{,}5} p_y^{0{,}5} U + p_y \cdot p_x^{0{,}5} p_y^{-0{,}5} U & & \text{substituindo } x^c \text{ e } y^c \\[6pt] &= p_x^{0{,}5} \, p_y^{0{,}5} \, U + p_x^{0{,}5} \, p_y^{0{,}5} \, U & & \text{simplificando expoentes} \\[6pt] &= 2 \, p_x^{0{,}5} \, p_y^{0{,}5} \, U & & \text{somando os dois termos iguais} \end{aligned}\]

\[\boxed{E(p_x, p_y, U) = 2 \, p_x^{0{,}5} \, p_y^{0{,}5} \, U}\]

Este é o resultado que Nicholson e Snyder (2012) apresenta no Exemplo 4.4 como dado; aqui o derivamos a partir do Lagrangiano.

Verificação pelo lema de Shephard

Tendo obtido \(x^c\) pelo Lagrangiano (Passo 4) e \(E\) pela soma \(p_x x^c + p_y y^c\) (acima), podemos verificar a consistência entre os dois resultados aplicando o lema de Shephard, que afirma \(\partial E/\partial p_x = x^c\):

\[\begin{aligned} \frac{\partial E}{\partial p_x} &= \frac{\partial}{\partial p_x}\bigl[2 \, p_x^{0{,}5} \, p_y^{0{,}5} \, U\bigr] & & p_y^{0{,}5} \text{ e } U \text{ são constantes em } p_x \\[6pt] &= 2 \cdot 0{,}5 \cdot p_x^{0{,}5 - 1} \cdot p_y^{0{,}5} \, U & & \text{regra da potência: } \partial p_x^{0{,}5}/\partial p_x = 0{,}5 \, p_x^{-0{,}5} \\[6pt] &= 1 \cdot p_x^{-0{,}5} \, p_y^{0{,}5} \, U & & 2 \times 0{,}5 = 1 \\[6pt] &= p_x^{-0{,}5} \, p_y^{0{,}5} \, U = x^c & & \checkmark \end{aligned}\]

Derivar \(E\) em \(p_x\) entrega exatamente a função de demanda Hicksiana obtida pelo Lagrangiano. As duas rotas (Lagrangiano direto e Shephard via \(E\)) chegam à mesma função, confirmando a consistência.

Rota alternativa: Shephard sem Lagrangiano do dual

Na rota acima, usamos o Lagrangiano do dual para obter \(x^c\) e \(y^c\), depois construímos \(E = p_x x^c + p_y y^c\), e então verificamos \(\partial E/\partial p_x = x^c\) por Shephard. Mas é possível obter \(x^c\) sem nunca montar o Lagrangiano do dual, usando apenas resultados do problema primal (já resolvido em Note 5.4):

Passo 1 — utilidade indireta \(V\) (do primal). Substituindo as demandas Marshallianas \(x^* = 0{,}5 I/p_x\) e \(y^* = 0{,}5 I/p_y\) na função utilidade:

\[\begin{aligned} V(p_x, p_y, I) &= U(x^*, y^*) & & \text{definição de utilidade indireta} \\[6pt] &= \left(\frac{0{,}5 I}{p_x}\right)^{0{,}5} \left(\frac{0{,}5 I}{p_y}\right)^{0{,}5} & & \text{substituindo } x^* \text{ e } y^* \\[6pt] &= (0{,}5)^{0{,}5} \cdot I^{0{,}5} \cdot p_x^{-0{,}5} \cdot (0{,}5)^{0{,}5} \cdot I^{0{,}5} \cdot p_y^{-0{,}5} & & \text{distribuindo expoentes} \\[6pt] &= 0{,}5 \cdot I \cdot p_x^{-0{,}5} \, p_y^{-0{,}5} & & \text{pois } (0{,}5)^{0{,}5} \cdot (0{,}5)^{0{,}5} = 0{,}5 \end{aligned}\]

\[\boxed{V(p_x, p_y, I) = \frac{I}{2 \, p_x^{0{,}5} \, p_y^{0{,}5}}}\]

\(V\) responde à pergunta: “qual a máxima utilidade atingível com renda \(I\) aos preços \((p_x, p_y)\)?”.

Passo 2 — inverter \(V\) para obter \(E\). A função de despesa responde à pergunta inversa: “qual a mínima renda para atingir utilidade \(U\)?”. Basta igualar \(V = U\) e isolar \(I\):

\[\begin{aligned} V(p_x, p_y, I) &= U & & \text{no ótimo, a utilidade indireta atinge o nível } U \\[6pt] \frac{I}{2 \, p_x^{0{,}5} \, p_y^{0{,}5}} &= U & & \text{substituindo a expressão de } V \\[6pt] I &= U \cdot 2 \, p_x^{0{,}5} \, p_y^{0{,}5} & & \text{multiplicando ambos os lados por } 2 \, p_x^{0{,}5} \, p_y^{0{,}5} \\[6pt] E(p_x, p_y, U) &= 2 \, p_x^{0{,}5} \, p_y^{0{,}5} \, U & & \text{renomeando } I \text{ como } E \text{ (renda mínima para atingir } U\text{)} \end{aligned}\]

Como \(E\) é a renda mínima necessária para atingir \(U\): \(E(p_x, p_y, U) = 2 \, p_x^{0{,}5} \, p_y^{0{,}5} \, U\) — o mesmo resultado obtido pelo Lagrangiano.

Passo 3 — aplicar Shephard. Derivando \(E\) em \(p_x\) (mesma derivada feita acima):

\[x^c = \frac{\partial E}{\partial p_x} = p_x^{-0{,}5} \, p_y^{0{,}5} \, U\]

A função de demanda Hicksiana foi obtida sem montar nenhum Lagrangiano do dual. O único ingrediente foi a utilidade indireta \(V\) do problema primal (já resolvido) + uma inversão algébrica + uma derivada.

Comparação das duas rotas:

Rota Passos Quando usar
Lagrangiano do dual \(\mathscr{L}\) → CPOs → tangência → resolver sistema → \(x^c\) Quando \(V\) ou \(E\) não são conhecidas
Shephard via inversão de \(V\) \(V\) (do primal) → inverter para \(E\)\(\partial E/\partial p_x = x^c\) Quando o primal já foi resolvido

A segunda rota é o motivo pelo qual o lema de Shephard é valorizado: transforma o problema dual inteiro em “inverter uma função + derivar”.

Aplicação numérica ao cenário-base

Para o cenário-base do capítulo (\(p_x = 1\), \(p_y = 4\), \(I = 8\)), a maximização de utilidade produz \(x^* = 4\), \(y^* = 1\) e \(U^* = \sqrt{4 \cdot 1} = 2\) (ver Note 5.3). A demanda Hicksiana fixa a utilidade nesse nível de referência \(\bar{U} = 2\). Substituindo \(p_y = 4\) e \(U = 2\) na fórmula geral:

\[\begin{aligned} x^c(p_x, p_y, U) &= p_x^{-0{,}5} \, p_y^{0{,}5} \, U & & \text{demanda Hicksiana Cobb-Douglas (derivada acima)} \\[6pt] x^c(p_x) &= p_x^{-0{,}5} \cdot 4^{0{,}5} \cdot 2 & & \text{substituindo } p_y = 4 \text{ e } U = 2 \\[6pt] &= p_x^{-0{,}5} \cdot 2 \cdot 2 & & \text{pois } 4^{0{,}5} = \sqrt{4} = 2 \\[6pt] &= 4 \, p_x^{-0{,}5} = \frac{4}{\sqrt{p_x}} & & \text{simplificando} \end{aligned}\]

Tabela de pares \((p_x, x^c)\) com \(p_y = 4\) e \(U = 2\):

\(p_x\) \(x^c = 4/\sqrt{p_x}\) Valor
0,5 \(4/\sqrt{0{,}5}\) \(\approx 5{,}66\)
1 \(4/\sqrt{1}\) \(4\)
2 \(4/\sqrt{2}\) \(\approx 2{,}83\)
4 \(4/\sqrt{4}\) \(2\)

Comparando com a Marshalliana \(x^*(p_x) = 4/p_x\) de Note 5.4 — que para os mesmos quatro preços assume \(8, 4, 2, 1\) — observa-se que \(x^c\) varia menos com \(p_x\) do que \(x^*\): quando \(p_x\) passa de \(1\) para \(4\), a Marshalliana cai de \(4\) para \(1\) (redução de 75%), mas a Hicksiana cai apenas de \(4\) para \(2\) (redução de 50%). Essa menor responsividade reflete exatamente a ausência do efeito renda na Hicksiana — tema que será formalizado na equação de Slutsky (Note 5.6).

Implementação em R

Código
# Réplica da Fig 5.6 de Nicholson — derivação da curva de demanda Hicksiana.
# Cobb-Douglas U = sqrt(xy), com p_y = 4 e U = 2 fixos; p_x varia em {0,5; 1; 2}.
# Demandas compensadas:
#   x^c(p_x) = p_x^(-0,5) * p_y^(0,5) * U = 4 / sqrt(p_x)
#   y^c(p_x) = p_x^( 0,5) * p_y^(-0,5) * U = sqrt(p_x)
#
# Pontos de tangência sobre a única curva de indiferença U = 2 (y = 4/x):
#   p_x = 0,5 => (x^c, y^c) = (5,66; 0,707)
#   p_x = 1   => (x^c, y^c) = (4;    1)
#   p_x = 2   => (x^c, y^c) = (2,83; 1,414)
#
# Função de despesa mínima em cada caso (E = 2 sqrt(p_x p_y) U = 8 sqrt(p_x)):
#   p_x = 0,5 => E = 8 sqrt(0,5)  ≈ 5,66 ; reta 0,5 x + 4 y = 5,66
#                                              => intercepto x = 11,31 ; y = 1,414
#   p_x = 1   => E = 8           ; reta   x +  4 y = 8
#                                              => intercepto x =  8    ; y = 2
#   p_x = 2   => E = 8 sqrt(2)    ≈ 11,31; reta 2 x + 4 y = 11,31
#                                              => intercepto x =  5,66 ; y = 2,828

# Painel (a): uma curva de indiferença U = 2 com 3 retas orçamentárias tangentes
p_a <- ggplot() +
  # Única curva de indiferença U = 2 (y = 4/x)
  geom_function(fun = \(x) 4 / x, xlim = c(1.2, 12),
                color = "blue", linewidth = 1) +
  # Retas orçamentárias de despesa mínima
  # p_x = 0,5 : 0,5 x + 4 y = 5,66  -> de (0; 1,414) a (11,31; 0)
  geom_segment(aes(x = 0, y = 1.414, xend = 11.31, yend = 0),
               color = "black", linewidth = 0.8) +
  # p_x = 1   : x + 4 y = 8         -> de (0; 2)     a (8; 0)
  geom_segment(aes(x = 0, y = 2, xend = 8, yend = 0),
               color = "black", linewidth = 0.8) +
  # p_x = 2   : 2 x + 4 y = 11,31   -> de (0; 2,828) a (5,66; 0)
  geom_segment(aes(x = 0, y = 2.828, xend = 5.66, yend = 0),
               color = "black", linewidth = 0.8) +
  # Pontos de tangência (todos sobre U = 2)
  geom_point(aes(x = c(5.66, 4, 2.83), y = c(0.707, 1, 1.414)),
             color = "red", size = 3.5) +
  # Rótulos dos pontos de tangência (deslocados para não sobrepor curvas/retas)
  annotate("text", x = 5.9, y = 1.05,
           label = latex2exp::TeX(r"($(5{,}66;\ 0{,}707)$)"),
           size = 3.6, color = "red", hjust = 0) +
  annotate("text", x = 4.20, y = 1.30,
           label = latex2exp::TeX(r"($(4;\ 1)$)"),
           size = 3.6, color = "red", hjust = 0) +
  annotate("text", x = 3.00, y = 1.75,
           label = latex2exp::TeX(r"($(2{,}83;\ 1{,}414)$)"),
           size = 3.6, color = "red", hjust = 0) +
  # Rótulos de p_x próximos ao intercepto vertical de cada reta orçamentária
  # (cada rótulo fica imediatamente acima do respectivo intercepto em y)
  annotate("text", x = 0.25, y = 2.98,
           label = latex2exp::TeX(r"($p_x = 2$)"),
           size = 3.6, hjust = 0) +
  annotate("text", x = 0.25, y = 2.15,
           label = latex2exp::TeX(r"($p_x = 1$)"),
           size = 3.6, hjust = 0) +
  annotate("text", x = 0.25, y = 1.55,
           label = latex2exp::TeX(r"($p_x = 0{,}5$)"),
           size = 3.6, hjust = 0) +
  # Rótulo da curva de indiferença (à direita, acima da curva)
  annotate("text", x = 10.5, y = 4 / 10.5 + 0.25,
           label = latex2exp::TeX(r"($U_2 = 2$)"),
           color = "blue", size = 4, hjust = 0) +
  scale_x_continuous(
    expand = c(0, 0),
    limits = c(0, 12),
    breaks = seq(0, 12, 2)
  ) +
  scale_y_continuous(
    expand = c(0, 0),
    limits = c(0, 4),
    breaks = seq(0, 4, 1)
  ) +
  labs(
    x = latex2exp::TeX(r"($x$)"),
    y = latex2exp::TeX(r"($y$)"),
    title = latex2exp::TeX(r"((a) Demanda compensada: utilidade constante)")
  ) +
  theme_minimal() +
  theme(
    axis.line  = element_line(color = "black", linewidth = 0.8),
    panel.grid = element_blank()
  )

# Painel (b): curva de demanda Hicksiana no plano (x^c, p_x).
# x^c(p_x) = 4 / sqrt(p_x)  <=>  p_x = 16 / x^2  no plano com p_x no eixo vertical.
# Três pontos: (x^c, p_x) = (5,66; 0,5), (4; 1), (2,83; 2).
# Eixos alinhados ao painel (a): x de 0 a 12, y de 0 a 4.
p_b <- ggplot() +
  geom_function(fun = \(x) 16 / x^2, xlim = c(2, 12),
                color = "red", linewidth = 1.1) +
  geom_point(aes(x = c(5.66, 4, 2.83), y = c(0.5, 1, 2)),
             color = "red", size = 3.5) +
  # Rótulos dos pontos
  annotate("text", x = 5.85, y = 0.75,
           label = latex2exp::TeX(r"($(5{,}66;\ 0{,}5)$)"),
           size = 3.8, color = "red", hjust = 0) +
  annotate("text", x = 4.20, y = 1.25,
           label = latex2exp::TeX(r"($(4;\ 1)$)"),
           size = 3.8, color = "red", hjust = 0) +
  annotate("text", x = 3.00, y = 2.30,
           label = latex2exp::TeX(r"($(2{,}83;\ 2)$)"),
           size = 3.8, color = "red", hjust = 0) +
  # Equação da curva
  annotate("text", x = 6.5, y = 3.2,
           label = latex2exp::TeX(r"($x^c(p_x) = 4 \, p_x^{-0{,}5}$)"),
           size = 4.5, color = "red", hjust = 0) +
  scale_x_continuous(
    expand = c(0, 0),
    limits = c(0, 12),
    breaks = seq(0, 12, 2)
  ) +
  scale_y_continuous(
    expand = c(0, 0),
    limits = c(0, 4),
    breaks = seq(0, 4, 1)
  ) +
  labs(
    x = latex2exp::TeX(r"(Quantidade $x^c$)"),
    y = latex2exp::TeX(r"(Preço $p_x$)"),
    title = latex2exp::TeX(r"((b) Curva de demanda compensada (Hicksiana))")
  ) +
  theme_minimal() +
  theme(
    axis.line  = element_line(color = "black", linewidth = 0.8),
    panel.grid = element_blank()
  )

# Empilhar verticalmente (p_a em cima, p_b embaixo)
p_a / p_b

Interpretação

A Hicksiana tem inclinação sempre não-positiva, consequência direta da concavidade da função de despesa em preços: \(\partial x^c/\partial p_x = \partial^2 E/\partial p_x^2 \leq 0\). Como \(x^c\) mantém a utilidade fixa por construção, o único canal ativo é a substituição ao longo de uma curva de indiferença, governada pela convexidade das preferências. A Hicksiana é, portanto, imune ao paradoxo Giffen (Note 5.3): o efeito renda (que gera o paradoxo) simplesmente não existe aqui.

A demanda compensada é a ferramenta natural para análise de bem-estar. Ao medir o ganho ou a perda de utilidade associados a uma mudança de preço (tributação, subsídio, controle de preços), a integral sob a Marshalliana mistura efeitos de substituição com efeitos de poder de compra. A Hicksiana, por manter a utilidade em um nível de referência, fornece medidas limpas: a variação compensatória e a variação equivalente, conceitos retomados em capítulos futuros.

Na comparação visual com a Marshalliana (painel (b) deste callout vs. painel (b) de Note 5.4), a Hicksiana é menos responsiva a preços: entre \(p_x = 1\) e \(p_x = 4\), a Marshalliana cai de \(4\) para \(1\) enquanto a Hicksiana cai apenas de \(4\) para \(2\). As duas curvas se cruzam no ponto em que a renda \(I\) basta, aos preços vigentes, para atingir a utilidade \(\bar{U}\) de referência; no caso-base (\(I = 8\), \(p_y = 4\)), esse ponto é \((p_x, x) = (1, 4)\). A diferença vertical entre elas fora desse ponto é a magnitude do efeito renda, formalizada na equação de Slutsky (Note 5.6).

Símbolo Significado
\(\partial x/\partial p_x\) efeito total (ET) — derivada da Marshalliana
\(\partial x^c/\partial p_x \big|_{U=\bar{U}}\) efeito substituição (ES) — derivada da Hicksiana
\(x \cdot \partial x/\partial I\) efeito renda (ER) — quantidade consumida vezes propensão marginal
\(x^c(p_x, p_y, U) = x[p_x, p_y, E(p_x, p_y, U)]\) identidade de dualidade
\(\partial E/\partial p_x = x^c\) lema de Shephard

Desenvolvimento Teórico

O objetivo desta seção é obter uma expressão algébrica para a decomposição que fizemos graficamente em Note 5.3. Lá, separamos o deslocamento total da cesta em duas parcelas — substituição (ao longo da curva de indiferença original) e renda (entre curvas de indiferença) — por meio de uma construção geométrica baseada em deslocamentos discretos da reta orçamentária. Agora, trabalhando com variações infinitesimais de preço, a mesma decomposição emerge de uma identidade matemática envolvendo derivadas. O resultado é a equação de Slutsky, um dos teoremas centrais da teoria do consumidor (Nicholson e Snyder, 2012).

O ponto de partida é a identidade de dualidade: se a renda \(I\) for escolhida exatamente como a despesa mínima necessária para atingir a utilidade \(\bar{U}\) aos preços \((p_x, p_y)\) — ou seja, \(I = E(p_x, p_y, \bar{U})\) —, então as demandas Marshalliana e Hicksiana produzem a mesma cesta. Formalmente,

\[x^c(p_x, p_y, U) = x\bigl[p_x, p_y, E(p_x, p_y, U)\bigr].\]

Essa identidade vale para qualquer \((p_x, p_y, U)\) e é a ponte algébrica entre os problemas primal e dual do consumidor.

Derivando ambos os lados em relação a \(p_x\) — lado esquerdo, derivada direta; lado direito, regra da cadeia porque \(E\) também depende de \(p_x\) —, obtemos

\[\begin{aligned} \frac{\partial x^c}{\partial p_x} &= \frac{\partial x}{\partial p_x} + \frac{\partial x}{\partial I} \cdot \frac{\partial E}{\partial p_x} & & \text{regra da cadeia no lado direito} \\[6pt] \frac{\partial x^c}{\partial p_x} &= \frac{\partial x}{\partial p_x} + \frac{\partial x}{\partial I} \cdot x^c & & \text{lema de Shephard: } \partial E/\partial p_x = x^c \\[6pt] \frac{\partial x^c}{\partial p_x} &= \frac{\partial x}{\partial p_x} + x \cdot \frac{\partial x}{\partial I} & & \text{no ponto ótimo, } x = x^c \end{aligned}\]

Isolando \(\partial x/\partial p_x\) no lado direito, chegamos à equação de Slutsky:

\[\boxed{ \frac{\partial x}{\partial p_x} = \underbrace{ \frac{\partial x^c}{\partial p_x}\bigg|_{U=\bar{U}} }_{\text{efeito substituição}} \;-\; \underbrace{ x \cdot \frac{\partial x}{\partial I} }_{\text{efeito renda}} }\]

A leitura é direta: a variação total da demanda Marshalliana em resposta a uma pequena variação de \(p_x\) decompõe-se em duas parcelas — uma ao longo da curva de indiferença (ES) e outra entre curvas de indiferença (ER).

Os sinais dos dois termos são governados por propriedades distintas. O efeito substituição \(\partial x^c/\partial p_x\) é sempre não-positivo: como \(E\) é côncava em preços, sua segunda derivada é \(\leq 0\), e pelo lema de Shephard \(\partial x^c/\partial p_x = \partial^2 E/\partial p_x^2 \leq 0\) (Note 5.5). Geometricamente, isso reflete a convexidade das curvas de indiferença — ao encarecer \(x\), o consumidor sempre substitui \(x\) por \(y\) ao longo da mesma CI. Já o efeito renda \(-x \cdot \partial x/\partial I\) tem sinal determinado por \(\partial x/\partial I\): para bens normais (\(\partial x/\partial I > 0\)), o termo é negativo e reforça o ES; para bens inferiores (\(\partial x/\partial I < 0\)), o termo é positivo e atenua o ES, podendo até revertê-lo no caso extremo dos bens de Giffen (Note 5.3). Essa diferença de sinais é o que torna a Marshalliana mais responsiva a preços do que a Hicksiana no caso normal — tema da Fig. 5.7 de Nicholson e Snyder (2012) e do gráfico comparativo construído adiante.

Exercício Resolvido

Cenário: Cobb-Douglas \(U(x, y) = x^{0{,}5} y^{0{,}5}\). De Note 5.4, a demanda Marshalliana é \(x(p_x, p_y, I) = 0{,}5 I / p_x\). De Note 5.5, a demanda Hicksiana é \(x^c(p_x, p_y, U) = p_x^{-0{,}5} \, p_y^{0{,}5} \, U\). A utilidade indireta, obtida substituindo \(x\) e \(y\) ótimos em \(U\), é \(V(p_x, p_y, I) = 0{,}5 \, I \, p_x^{-0{,}5} \, p_y^{-0{,}5}\) (Example 4.1 de Nicholson e Snyder (2012)).

Passo 1 — efeito total (derivada da Marshalliana).

Como a quantidade total de \(x\) varia quando \(p_x\) muda marginalmente, considerando todos os ajustes do consumidor (substituição entre bens e mudança no poder de compra)?

\[\begin{aligned} \frac{\partial x}{\partial p_x} &= \frac{\partial}{\partial p_x}\!\left[\frac{0{,}5 \, I}{p_x}\right] & & \text{derivando a Marshalliana em } p_x \\[6pt] &= -\frac{0{,}5 \, I}{p_x^2} & & \text{regra da potência} \end{aligned}\]

\[\boxed{\text{Efeito total: } \frac{\partial x}{\partial p_x} = -\frac{0{,}5 \, I}{p_x^2}}\]

Sinal negativo: um aumento em \(p_x\) reduz a quantidade demandada de \(x\). Este efeito total será decomposto nos Passos 2 e 3.

Passo 2 — efeito substituição (derivada da Hicksiana).

Se o consumidor fosse compensado em renda para manter a utilidade constante, quanto de \(x\) ele substituiria por \(y\) em resposta à mudança de preço?

\[\begin{aligned} \frac{\partial x^c}{\partial p_x} &= \frac{\partial}{\partial p_x}\!\left[p_x^{-0{,}5} \, p_y^{0{,}5} \, U\right] & & \text{derivando a Hicksiana em } p_x \\[6pt] &= -0{,}5 \, p_x^{-1{,}5} \, p_y^{0{,}5} \, U & & \text{regra da potência} \end{aligned}\]

A Hicksiana está em função de \(U\); para confrontá-la com a Marshalliana (que depende de \(I\)), substituímos \(U\) pela utilidade indireta \(V = 0{,}5 \, I \, p_x^{-0{,}5} \, p_y^{-0{,}5}\):

\[\begin{aligned} \frac{\partial x^c}{\partial p_x} &= -0{,}5 \, p_x^{-1{,}5} \, p_y^{0{,}5} \cdot 0{,}5 \, I \, p_x^{-0{,}5} \, p_y^{-0{,}5} & & \text{substituindo } U = V \\[6pt] &= -0{,}25 \, I \, p_x^{-2} \, p_y^{0} & & \text{agrupando potências} \\[6pt] &= -\frac{0{,}25 \, I}{p_x^2} & & \text{simplificando } (p_y^{0} = 1) \end{aligned}\]

\[\boxed{\text{Efeito substituição: } \frac{\partial x^c}{\partial p_x} = -\frac{0{,}25 \, I}{p_x^2}}\]

Sempre negativo: com utilidade fixa, o consumidor sempre se afasta do bem que encareceu. Captura apenas a realocação da cesta devida à mudança nos preços relativos.

Passo 3 — efeito renda.

Quanto da variação total de \(x\) se deve à perda (ou ganho) de poder de compra causada pela mudança de \(p_x\)?

\[\begin{aligned} x \cdot \frac{\partial x}{\partial I} &= \frac{0{,}5 \, I}{p_x} \cdot \frac{\partial}{\partial I}\!\left[\frac{0{,}5 \, I}{p_x}\right] & & \text{quantidade demandada vezes propensão marginal} \\[6pt] &= \frac{0{,}5 \, I}{p_x} \cdot \frac{0{,}5}{p_x} & & \text{derivada linear em } I \\[6pt] &= \frac{0{,}25 \, I}{p_x^2} & & \text{multiplicando} \end{aligned}\]

Na equação de Slutsky este termo aparece com sinal negativo (\(-x \cdot \partial x/\partial I\)):

\[\boxed{\text{Efeito renda: } -x \cdot \frac{\partial x}{\partial I} = -\frac{0{,}25 \, I}{p_x^2}}\]

Negativo para bens normais (\(\partial x/\partial I > 0\)): a alta de preço reduz o poder de compra, e como \(x\) é normal, o consumidor demanda menos. Reforça o efeito substituição.

Passo 4 — verificação da equação de Slutsky:

\[\begin{aligned} \frac{\partial x^c}{\partial p_x} - x \cdot \frac{\partial x}{\partial I} &= -\frac{0{,}25 \, I}{p_x^2} - \frac{0{,}25 \, I}{p_x^2} & & \text{ES menos ER} \\[6pt] &= -\frac{0{,}5 \, I}{p_x^2} & & \text{somando frações} \\[6pt] &= \frac{\partial x}{\partial p_x} \quad \checkmark & & \text{idêntico ao Passo 1} \end{aligned}\]

Verificação numérica (\(I = 8\), \(p_x = 1\), \(p_y = 4\)):

Efeito Fórmula Valor
Total (ET \(= \partial x/\partial p_x\)) \(-0{,}5 \, I/p_x^2\) \(-4\)
Substituição (ES \(= \partial x^c/\partial p_x\)) \(-0{,}25 \, I/p_x^2\) \(-2\)
Renda (ER \(= -x \cdot \partial x/\partial I\)) \(-0{,}25 \, I/p_x^2\) \(-2\)

Leitura: adotando a convenção ET \(=\) ES \(+\) ER (mesma de Note 5.3), absorvemos o sinal de subtração no efeito renda: ER \(= -x \cdot \partial x/\partial I = -0{,}25 \, I/p_x^2\). Com isso, ET \(= -4 = -2 + (-2) =\) ES \(+\) ER, confirmando a identidade. No ponto inicial, ES e ER contribuem com magnitudes iguais (\(-2\) cada), somando o efeito total \(-4\). Essa simetria não é coincidência: na Cobb-Douglas com expoentes iguais (\(\alpha = \beta = 0{,}5\)), metade do orçamento vai para cada bem e as duas parcelas da decomposição têm exatamente o mesmo peso. Preferências mais assimétricas produzem decomposições desbalanceadas, como se verá nos exercícios do Cap. 5 de Nicholson e Snyder (2012).

Implementação em R

Código
# Comparação entre Marshalliana e Hicksiana no plano (x, p_x).
# Caso Cobb-Douglas U = sqrt(xy), com I = 8, p_y = 4, U_ref = 2.
# Marshalliana: x*(p_x) = 0,5 I / p_x = 4 / p_x           => p_x = 4 / x
# Hicksiana:    x^c(p_x) = 4 / sqrt(p_x)                  => p_x = 16 / x^2
# Ambas passam pelo ponto comum (x, p_x) = (4, 1).

ggplot() +
  # Curva Marshalliana (vermelho): p_x = 4 / x
  geom_function(fun = \(x) 4 / x, xlim = c(1, 10),
                color = "red", linewidth = 1.1) +
  # Curva Hicksiana (azul): p_x = 16 / x^2
  geom_function(fun = \(x) 16 / x^2, xlim = c(1.5, 10),
                color = "blue", linewidth = 1.1) +
  # Ponto comum de tangência
  geom_point(aes(x = 4, y = 1), color = "purple", size = 4) +
  # Rótulo do ponto comum
  annotate("text", x = 4.3, y = 1.35,
           label = latex2exp::TeX(r"($(x=4,\ p_x=1)$)"),
           color = "purple", size = 4.2, hjust = 0) +
  # Rótulos posicionados no canto superior direito (região sem curvas);
  # a cor já identifica a qual curva cada rótulo se refere.
  annotate("text", x = 6, y = 3.0,
           label = latex2exp::TeX(r"(Marshalliana: $x^* = 4/p_x$)"),
           color = "red", size = 4.2, hjust = 0) +
  annotate("text", x = 6, y = 2.4,
           label = latex2exp::TeX(r"(Hicksiana: $x^c = 4 \, p_x^{-0{,}5}$)"),
           color = "blue", size = 4.2, hjust = 0) +
  scale_x_continuous(
    expand = c(0, 0),
    limits = c(0, 11),
    breaks = seq(0, 10, 2)
  ) +
  scale_y_continuous(
    expand = c(0, 0),
    limits = c(0, 4),
    breaks = seq(0, 4, 1)
  ) +
  labs(
    x = latex2exp::TeX(r"(Quantidade $x$)"),
    y = latex2exp::TeX(r"(Preço $p_x$)"),
    title = latex2exp::TeX(r"(Marshalliana vs Hicksiana no ponto de tangência ($p_x = 1$, $I = 8$))")
  ) +
  theme_minimal() +
  theme(
    axis.line  = element_line(color = "black", linewidth = 0.8),
    panel.grid = element_blank()
  )

Interpretação

A equação de Slutsky unifica duas versões da mesma decomposição. A gráfica (Note 5.3) compara antes e depois de um choque finito de preço; a analítica responde como a demanda varia em resposta a uma variação infinitesimal. Em ambas, o efeito total é soma de substituição (utilidade constante) e renda (poder de compra variando). O resultado mais robusto é o sinal não-positivo do efeito substituição: como a função de despesa é côncava em preços (Note 5.5), \(\partial x^c/\partial p_x \leq 0\) vale para qualquer estrutura de preferências que respeite os axiomas básicos. Daí a importância da Hicksiana em bem-estar: seu sinal é previsível por construção.

O efeito renda, diferentemente, depende do tipo de bem. Para bens normais, \(\partial x/\partial I > 0\) torna o ER negativo, reforçando o ES; a Marshalliana fica mais responsiva a preços que a Hicksiana. Para bens inferiores, o ER tem sinal oposto ao ES e o atenua; no caso Giffen, o domina, invertendo a inclinação da Marshalliana. No gráfico, as duas curvas se cruzam em \((x, p_x) = (4, 1)\), o ponto-base em que \(I = 8\) permite atingir \(\bar{U} = 2\). A diferença vertical entre elas, em cada \(p_x\), é a magnitude acumulada do efeito renda.

Aplicações de Slutsky incluem variação compensatória e equivalente (análise de bem-estar), elasticidades compensadas (tributação e deadweight loss, Cap. 6 de Nicholson e Snyder (2012)) e as restrições de simetria e negatividade impostas a sistemas de demanda estimados empiricamente. Com essa formalização, o capítulo fecha seu arco: homogeneidade, variações de renda, decomposição gráfica, as curvas Marshalliana e Hicksiana, e agora Slutsky. O próximo passo é o estudo de elasticidades, agregação de demandas e análise aplicada de bem-estar.

Decomposição gráfica via curvas de demanda

O gráfico abaixo replica a decomposição de Note 5.3 (que usava o plano \(x \times y\)), agora no plano preço-quantidade (\(x \times p_x\)) usando as curvas de demanda Marshalliana e Hicksiana. Para o choque \(p_x: 1 \to 4\):

  • \(A = (4;\; 1)\): ponto inicial, onde ambas as curvas se cruzam (ao preço antigo, Marshalliana e Hicksiana coincidem).
  • \(B = (2;\; 4)\): ponto sobre a Hicksiana ao preço novo. O consumidor, se compensado para manter \(\bar{U} = 2\), demandaria \(x^c = 4/\sqrt{4} = 2\). O movimento \(A \to B\) é o efeito substituição (ES \(= 2 - 4 = -2\)).
  • \(C = (1;\; 4)\): ponto sobre a Marshalliana ao preço novo. Sem compensação, demanda \(x^* = 4/4 = 1\). O movimento \(B \to C\) é o efeito renda (ER \(= 1 - 2 = -1\)).
  • Efeito total: \(A \to C\), ET \(= 1 - 4 = -3 =\) ES \(+\) ER ✓.

Os mesmos valores de Note 5.3 (\(-2\), \(-1\), \(-3\)), agora lidos diretamente nas curvas de demanda: a distância horizontal entre \(A\) e \(B\) é o ES; entre \(B\) e \(C\), o ER; entre \(A\) e \(C\), o ET.

Código
# Decomposição de Slutsky no plano preço-quantidade.
# Marshalliana: x* = 4/p_x  =>  p_x = 4/x
# Hicksiana:    x^c = 4/sqrt(p_x)  =>  p_x = 16/x^2
# Choque: p_x de 1 para 4.
# A = (4, 1): ambas curvas em p_x = 1
# B = (2, 4): Hicksiana em p_x = 4
# C = (1, 4): Marshalliana em p_x = 4

ggplot() +
  # Eixos em x = 0 e y = 0
  geom_hline(yintercept = 0, color = "black", linewidth = 0.8) +
  geom_vline(xintercept = 0, color = "black", linewidth = 0.8) +
  # Curva Marshalliana (vermelho): p_x = 4/x
  geom_function(fun = \(x) 4 / x, xlim = c(0.7, 10),
                color = "red", linewidth = 1.1) +
  # Curva Hicksiana (azul): p_x = 16/x^2
  geom_function(fun = \(x) 16 / x^2, xlim = c(1.8, 10),
                color = "blue", linewidth = 1.1) +
  # Linhas horizontais tracejadas nos preços antigo e novo
  geom_segment(aes(x = 0, y = 1, xend = 4, yend = 1),
               linetype = "dashed", color = "gray50", linewidth = 0.5) +
  geom_segment(aes(x = 0, y = 4, xend = 2, yend = 4),
               linetype = "dashed", color = "gray50", linewidth = 0.5) +
  # Projeções verticais dos 3 pontos até o eixo x
  geom_segment(aes(x = 4, y = 0, xend = 4, yend = 1),
               linetype = "dotted", color = "red", linewidth = 0.4) +
  geom_segment(aes(x = 2, y = 0, xend = 2, yend = 4),
               linetype = "dotted", color = "darkgreen", linewidth = 0.4) +
  geom_segment(aes(x = 1, y = 0, xend = 1, yend = 4),
               linetype = "dotted", color = "purple", linewidth = 0.4) +
  # Pontos A, B, C
  geom_point(aes(x = 4, y = 1), color = "red", size = 3.5) +
  geom_point(aes(x = 2, y = 4), color = "darkgreen", size = 3.5) +
  geom_point(aes(x = 1, y = 4), color = "purple", size = 3.5) +
  # Rótulos dos pontos
  annotate("text", x = 4.2, y = 1.4,
           label = "A = (4; 1)", color = "red", size = 4, hjust = 0) +
  annotate("text", x = 2.2, y = 4.4,
           label = "B = (2; 4)", color = "darkgreen", size = 4, hjust = 0) +
  annotate("text", x = 0.2, y = 4.6,
           label = "C = (1; 4)", color = "purple", size = 4, hjust = 0) +
  # Rótulos de preço no eixo y
  annotate("text", x = 0.15, y = 0.7,
           label = latex2exp::TeX(r"($p_x = 1$)"),
           size = 3.5, hjust = 0) +
  annotate("text", x = 0.15, y = 3.7,
           label = latex2exp::TeX(r"($p_x = 4$)"),
           size = 3.5, hjust = 0) +
  # Colchetes ES e ER abaixo do eixo x
  annotate("segment", x = 2, xend = 4, y = -0.30, yend = -0.30,
           color = "darkgreen", linewidth = 0.8,
           arrow = arrow(ends = "both", length = unit(0.15, "cm"))) +
  annotate("text", x = 3, y = -0.55,
           label = latex2exp::TeX(r"(ES $= -2$)"),
           color = "darkgreen", size = 3.8) +
  annotate("segment", x = 1, xend = 2, y = -0.30, yend = -0.30,
           color = "purple", linewidth = 0.8,
           arrow = arrow(ends = "both", length = unit(0.15, "cm"))) +
  annotate("text", x = 1.5, y = -0.55,
           label = latex2exp::TeX(r"(ER $= -1$)"),
           color = "purple", size = 3.8) +
  # Rótulos das curvas (canto superior direito, sem sobreposição)
  annotate("text", x = 6, y = 3.8,
           label = latex2exp::TeX(r"(Marshalliana: $x^* = 4/p_x$)"),
           color = "red", size = 4, hjust = 0) +
  annotate("text", x = 6, y = 3.2,
           label = latex2exp::TeX(r"(Hicksiana: $x^c = 4 \, p_x^{-0{,}5}$)"),
           color = "blue", size = 4, hjust = 0) +
  scale_x_continuous(
    expand = c(0, 0),
    limits = c(0, 11),
    breaks = seq(0, 10, 1)
  ) +
  scale_y_continuous(
    expand = c(0, 0),
    limits = c(-0.8, 5.5),
    breaks = seq(0, 5, 1)
  ) +
  labs(
    x = latex2exp::TeX(r"(Quantidade $x$)"),
    y = latex2exp::TeX(r"(Preço $p_x$)"),
    title = latex2exp::TeX(r"(Decomposição de Slutsky no plano preço-quantidade: $p_x$: $1 \to 4$)")
  ) +
  theme_minimal() +
  theme(
    axis.line  = element_blank(),
    panel.grid = element_blank()
  )

Símbolo Significado
\(e_{x, p_x}\) elasticidade-preço da demanda
\(e_{x, I}\) elasticidade-renda
\(e_{x, p_y}\) elasticidade-preço cruzada
\(e_{x^c, p_x}\) elasticidade-preço compensada (Hicksiana)
\(s_x = p_x x / I\) fração da renda gasta em \(x\)

Desenvolvimento Teórico

As derivadas \(\partial x/\partial p_x\), \(\partial x/\partial I\) e \(\partial x/\partial p_y\) que estudamos nos callouts anteriores dependem das unidades em que preços, renda e quantidades são medidos. Por isso, no trabalho empírico, prefere-se trabalhar com elasticidades: medidas adimensionais que expressam variações proporcionais (percentuais) e permitem comparação entre bens, países e períodos (Nicholson e Snyder, 2012).

Definições (Marshalliana). A partir da função de demanda \(x(p_x, p_y, I)\):

\[\begin{aligned} e_{x, p_x} &= \frac{\partial x}{\partial p_x} \cdot \frac{p_x}{x} & & \text{elasticidade-preço: $\%$ em $x$ por $\%$ em $p_x$} \\[6pt] e_{x, I} &= \frac{\partial x}{\partial I} \cdot \frac{I}{x} & & \text{elasticidade-renda} \\[6pt] e_{x, p_y} &= \frac{\partial x}{\partial p_y} \cdot \frac{p_y}{x} & & \text{elasticidade-preço cruzada} \end{aligned}\]

Classificação da elasticidade-preço. Como a demanda Marshalliana de bens normais e inferiores comuns é descendente, \(e_{x, p_x} \leq 0\). Pela magnitude absoluta, convencionou-se:

Caso Valor de \(e_{x, p_x}\) Interpretação
Elástica \(e_{x, p_x} < -1\) demanda responde mais que proporcionalmente a \(p_x\)
Elasticidade unitária \(e_{x, p_x} = -1\) resposta proporcional
Inelástica \(-1 < e_{x, p_x} < 0\) demanda responde menos que proporcionalmente
Giffen \(e_{x, p_x} > 0\) caso excepcional (Note 5.3)

Elasticidade-preço e gasto total. O gasto em \(x\) é o produto \(p_x \cdot x\). Diferenciando em relação a \(p_x\) pela regra do produto:

\[\begin{aligned} \frac{\partial (p_x \cdot x)}{\partial p_x} &= \frac{\partial p_x}{\partial p_x} \cdot x + p_x \cdot \frac{\partial x}{\partial p_x} & & \text{regra do produto} \\[6pt] &= x + p_x \cdot \frac{\partial x}{\partial p_x} & & \text{pois } \partial p_x/\partial p_x = 1 \\[6pt] &= x + x \cdot \frac{\partial x}{\partial p_x} \cdot \frac{p_x}{x} & & \text{multiplicando e dividindo por } x \\[6pt] &= x + x \cdot e_{x, p_x} & & \text{definição de } e_{x, p_x} \\[6pt] &= x \, (1 + e_{x, p_x}) & & \text{colocando } x \text{ em evidência} \end{aligned}\]

O sinal depende de \(e_{x, p_x}\) ser maior ou menor que \(-1\): demanda inelástica (\(-1 < e_{x, p_x} < 0\)) implica \(1 + e_{x, p_x} > 0\) e o gasto total cresce com o preço; demanda elástica (\(e_{x, p_x} < -1\)) implica \(1 + e_{x, p_x} < 0\) e o gasto cai; no caso unitário (\(e_{x, p_x} = -1\)), o gasto é invariante a \(p_x\).

Elasticidades compensadas. Aplicando as mesmas definições à demanda Hicksiana \(x^c(p_x, p_y, U)\):

\[e_{x^c, p_x} = \frac{\partial x^c}{\partial p_x} \cdot \frac{p_x}{x^c}, \qquad e_{x^c, p_y} = \frac{\partial x^c}{\partial p_y} \cdot \frac{p_y}{x^c}\]

Slutsky em forma de elasticidade

Partimos da equação de Slutsky derivada em Note 5.6 e multiplicamos ambos os lados por \(p_x / x\):

\[\begin{aligned} \frac{\partial x}{\partial p_x} &= \frac{\partial x^c}{\partial p_x} - x \cdot \frac{\partial x}{\partial I} & & \text{Slutsky (original)} \\[6pt] \frac{\partial x}{\partial p_x} \cdot \frac{p_x}{x} &= \frac{\partial x^c}{\partial p_x} \cdot \frac{p_x}{x} - x \cdot \frac{\partial x}{\partial I} \cdot \frac{p_x}{x} & & \text{multiplicando por } p_x/x \\[6pt] e_{x, p_x} &= \frac{\partial x^c}{\partial p_x} \cdot \frac{p_x}{x^c} - p_x \cdot \frac{\partial x}{\partial I} & & \text{pois no ponto ótimo } x = x^c \\[6pt] e_{x, p_x} &= e_{x^c, p_x} - \frac{p_x x}{I} \cdot \frac{\partial x}{\partial I} \cdot \frac{I}{x} & & \text{multiplicando e dividindo por } I \text{ e } x \\[6pt] e_{x, p_x} &= e_{x^c, p_x} - s_x \cdot e_{x, I} & & \text{definições de } s_x = p_x x/I \text{ e } e_{x, I} \end{aligned}\]

\[\boxed{e_{x, p_x} = e_{x^c, p_x} - s_x \, e_{x, I}}\]

A elasticidade Marshalliana e a compensada coincidem quando o bem tem pequena participação no orçamento (\(s_x \to 0\)) ou quando a demanda é renda-inelástica (\(e_{x, I} \to 0\)). Em muitos bens aplicados, ao menos uma dessas condições se aproxima, de modo que os dois conceitos de elasticidade-preço podem ser usados quase indistintamente no trabalho empírico (Nicholson e Snyder, 2012).

Três relações de agregação

Da estrutura de utilidade-maximização (restrição orçamentária + homogeneidade da demanda) seguem três restrições internas entre as elasticidades. Derivamos cada uma abaixo.

(i) Homogeneidade de grau zero — via teorema de Euler.

A demanda Marshalliana \(x(p_x, p_y, I)\) é homogênea de grau zero em \((p_x, p_y, I)\), como mostrado em Note 5.1. Pelo teorema de Euler, se uma função \(f(z_1, \ldots, z_n)\) é homogênea de grau \(k\), então \(\sum_i z_i \, \partial f/\partial z_i = k \cdot f\). Aplicado a \(x\) com \(k = 0\):

\[\begin{aligned} p_x \cdot \frac{\partial x}{\partial p_x} + p_y \cdot \frac{\partial x}{\partial p_y} + I \cdot \frac{\partial x}{\partial I} &= 0 & & \text{Euler com } k = 0 \\[6pt] \frac{p_x}{x} \cdot \frac{\partial x}{\partial p_x} + \frac{p_y}{x} \cdot \frac{\partial x}{\partial p_y} + \frac{I}{x} \cdot \frac{\partial x}{\partial I} &= 0 & & \text{dividindo tudo por } x \\[6pt] e_{x, p_x} + e_{x, p_y} + e_{x, I} &= 0 & & \text{definições de elasticidade} \end{aligned}\]

\[\boxed{e_{x, p_x} + e_{x, p_y} + e_{x, I} = 0}\]

Ou seja, a soma das três elasticidades é zero: não é possível que todas sejam positivas (ou todas negativas) — a estrutura de utilidade-maximização força um balanço entre elas.

(ii) Agregação de Engel — via derivação da restrição orçamentária em \(I\).

A restrição orçamentária é \(I = p_x x + p_y y\). Derivando ambos os lados em relação a \(I\) (com \(p_x, p_y\) fixos):

\[\begin{aligned} \frac{\partial I}{\partial I} &= \frac{\partial (p_x x + p_y y)}{\partial I} & & \text{derivando a restrição} \\[6pt] 1 &= p_x \cdot \frac{\partial x}{\partial I} + p_y \cdot \frac{\partial y}{\partial I} & & \text{pois } \partial I/\partial I = 1 \end{aligned}\]

Para transformar em elasticidades, multiplicamos e dividimos cada termo por \(x\) (ou \(y\)) e por \(I\):

\[\begin{aligned} 1 &= \underbrace{\frac{p_x x}{I}}_{s_x} \cdot \underbrace{\frac{\partial x}{\partial I} \cdot \frac{I}{x}}_{e_{x, I}} + \underbrace{\frac{p_y y}{I}}_{s_y} \cdot \underbrace{\frac{\partial y}{\partial I} \cdot \frac{I}{y}}_{e_{y, I}} & & \text{reagrupando em elasticidades} \\[6pt] 1 &= s_x \cdot e_{x, I} + s_y \cdot e_{y, I} \end{aligned}\]

\[\boxed{s_x \, e_{x, I} + s_y \, e_{y, I} = 1}\]

A média ponderada das elasticidades-renda (com pesos iguais às frações de gasto) é exatamente \(1\). Se um bem tem elasticidade-renda menor que \(1\) (caso da alimentação na Lei de Engel, Note 5.2), algum outro bem do orçamento necessariamente tem elasticidade-renda maior que \(1\) (bem de luxo).

(iii) Agregação de Cournot — via derivação da restrição orçamentária em \(p_x\).

Novamente partindo de \(I = p_x x + p_y y\) e derivando agora em relação a \(p_x\) (com \(p_y, I\) fixos, e lembrando que \(x\) e \(y\) são funções de \(p_x\)):

\[\begin{aligned} \frac{\partial I}{\partial p_x} &= \frac{\partial (p_x x)}{\partial p_x} + \frac{\partial (p_y y)}{\partial p_x} & & \text{derivando a restrição} \\[6pt] 0 &= x + p_x \cdot \frac{\partial x}{\partial p_x} + p_y \cdot \frac{\partial y}{\partial p_x} & & \text{regra do produto no 1º termo; } \partial I/\partial p_x = 0 \end{aligned}\]

Multiplicamos tudo por \(p_x / I\):

\[\begin{aligned} 0 &= \frac{p_x x}{I} + \frac{p_x^2}{I} \cdot \frac{\partial x}{\partial p_x} + \frac{p_x p_y}{I} \cdot \frac{\partial y}{\partial p_x} & & \text{multiplicando por } p_x/I \\[6pt] 0 &= \underbrace{\frac{p_x x}{I}}_{s_x} + \underbrace{\frac{p_x x}{I}}_{s_x} \cdot \underbrace{\frac{\partial x}{\partial p_x} \cdot \frac{p_x}{x}}_{e_{x, p_x}} + \underbrace{\frac{p_y y}{I}}_{s_y} \cdot \underbrace{\frac{\partial y}{\partial p_x} \cdot \frac{p_x}{y}}_{e_{y, p_x}} & & \text{reagrupando em elasticidades} \end{aligned}\]

Isolando os termos com elasticidade:

\[\boxed{s_x \, e_{x, p_x} + s_y \, e_{y, p_x} = -s_x}\]

A restrição orçamentária impõe que efeitos próprios e cruzados das mudanças de preço estejam conectados: um choque em \(p_x\) não pode afetar apenas o consumo de \(x\); necessariamente altera também o consumo de \(y\) na proporção ditada por esta equação.

Essas três restrições — homogeneidade, Engel e Cournot — não dependem da forma funcional da utilidade. Qualquer sistema de demanda derivado de utilidade-maximização deve satisfazê-las, e testes empíricos dessas relações são usados para avaliar a consistência teórica de estimativas de elasticidades.

Exercício Resolvido

Cenário: Cobb-Douglas \(U = x^\alpha y^{1-\alpha}\) com \(\alpha + \beta = 1\). As demandas Marshallianas são \(x^* = \alpha I / p_x\) e \(y^* = (1-\alpha) I / p_y\). Vamos calcular as três elasticidades de \(x\), verificar as relações de agregação e obter a elasticidade compensada via Slutsky.

Passo 1 — Elasticidade-preço \(e_{x, p_x}\).

Começamos calculando a derivada parcial. Reescrevemos \(x = \alpha I \cdot p_x^{-1}\) para aplicar a regra da potência:

\[\begin{aligned} \frac{\partial x}{\partial p_x} &= \frac{\partial}{\partial p_x}\!\left[\alpha I \cdot p_x^{-1}\right] & & \text{reescrevendo } x \\[6pt] &= \alpha I \cdot (-1) \cdot p_x^{-2} & & \text{regra da potência, } \alpha I \text{ constante em } p_x \\[6pt] &= -\frac{\alpha I}{p_x^2} \end{aligned}\]

Agora o fator \(p_x / x\):

\[\frac{p_x}{x} = \frac{p_x}{\alpha I / p_x} = \frac{p_x \cdot p_x}{\alpha I} = \frac{p_x^2}{\alpha I}\]

Multiplicando os dois fatores:

\[\begin{aligned} e_{x, p_x} &= \frac{\partial x}{\partial p_x} \cdot \frac{p_x}{x} & & \text{definição} \\[6pt] &= -\frac{\alpha I}{p_x^2} \cdot \frac{p_x^2}{\alpha I} & & \text{substituindo os dois fatores} \\[6pt] &= -1 & & p_x^2 \text{ e } \alpha I \text{ cancelam} \end{aligned}\]

Passo 2 — Elasticidade-renda \(e_{x, I}\).

Derivando \(x = \alpha I / p_x\) em relação a \(I\) (com \(p_x\) constante):

\[\frac{\partial x}{\partial I} = \frac{\alpha}{p_x}\]

Fator \(I / x\):

\[\frac{I}{x} = \frac{I}{\alpha I / p_x} = \frac{p_x}{\alpha}\]

Multiplicando:

\[\begin{aligned} e_{x, I} &= \frac{\partial x}{\partial I} \cdot \frac{I}{x} & & \text{definição} \\[6pt] &= \frac{\alpha}{p_x} \cdot \frac{p_x}{\alpha} & & \text{substituindo os dois fatores} \\[6pt] &= 1 & & p_x \text{ e } \alpha \text{ cancelam} \end{aligned}\]

Passo 3 — Elasticidade-preço cruzada \(e_{x, p_y}\).

A demanda Cobb-Douglas \(x^* = \alpha I / p_x\) não depende de \(p_y\), logo:

\[\frac{\partial x}{\partial p_y} = 0 \quad \Longrightarrow \quad e_{x, p_y} = 0 \cdot \frac{p_y}{x} = 0\]

Passo 4 — Frações de gasto \(s_x\) e \(s_y\).

\[\begin{aligned} s_x &= \frac{p_x \, x^*}{I} = \frac{p_x \cdot (\alpha I / p_x)}{I} = \alpha \\[6pt] s_y &= \frac{p_y \, y^*}{I} = \frac{p_y \cdot ((1-\alpha) I / p_y)}{I} = 1 - \alpha = \beta \end{aligned}\]

As frações de gasto coincidem com os expoentes da Cobb-Douglas — uma característica particular dessa forma funcional.

Passo 5 — Verificação das três relações de agregação.

Por simetria, o bem \(y\) tem as mesmas elasticidades que \(x\) com os papéis trocados: \(e_{y, p_y} = -1\), \(e_{y, I} = 1\), \(e_{y, p_x} = 0\).

Homogeneidade (grau zero):

\[e_{x, p_x} + e_{x, p_y} + e_{x, I} = (-1) + 0 + 1 = 0 \quad ✓\]

Agregação de Engel (média ponderada das elasticidades-renda = 1):

\[s_x \, e_{x, I} + s_y \, e_{y, I} = \alpha \cdot 1 + (1-\alpha) \cdot 1 = \alpha + 1 - \alpha = 1 \quad ✓\]

Agregação de Cournot (soma ponderada dos efeitos em \(p_x\) = \(-s_x\)):

\[s_x \, e_{x, p_x} + s_y \, e_{y, p_x} = \alpha \cdot (-1) + (1-\alpha) \cdot 0 = -\alpha = -s_x \quad ✓\]

Passo 6 — Elasticidade compensada via Slutsky em elasticidade.

Aplicando a fórmula \(e_{x, p_x} = e_{x^c, p_x} - s_x \cdot e_{x, I}\) e isolando \(e_{x^c, p_x}\):

\[\begin{aligned} e_{x^c, p_x} &= e_{x, p_x} + s_x \cdot e_{x, I} & & \text{isolando } e_{x^c, p_x} \\[6pt] &= (-1) + \alpha \cdot 1 & & \text{substituindo os valores calculados} \\[6pt] &= \alpha - 1 \\[6pt] &= -(1 - \alpha) = -\beta & & \text{pois } \beta = 1 - \alpha \end{aligned}\]

Verificação numérica em dois cenários. Comparamos o fio-condutor (\(\alpha = \beta = 0{,}5\)) com um caso alternativo assimétrico (\(\alpha = 0{,}3\), \(\beta = 0{,}7\)). A renda e os preços são os mesmos: \(p_x = 1\), \(p_y = 4\), \(I = 8\).

Grandeza Símbolo Fio-condutor (\(\alpha = 0{,}5\)) Alternativo (\(\alpha = 0{,}3\)) Depende de \(\alpha\)?
Elasticidade-preço Marshalliana \(e_{x, p_x}\) \(-1\) \(-1\) não
Elasticidade-renda \(e_{x, I}\) \(1\) \(1\) não
Elasticidade-preço cruzada \(e_{x, p_y}\) \(0\) \(0\) não
Fração de gasto em \(x\) \(s_x\) \(0{,}5\) \(0{,}3\) sim
Fração de gasto em \(y\) \(s_y\) \(0{,}5\) \(0{,}7\) sim
Elasticidade-preço Hicksiana \(e_{x^c, p_x}\) \(-0{,}5\) \(-0{,}7\) sim
Distância Marshalliana − Hicksiana \(\lvert e_{x, p_x} \rvert - \lvert e_{x^c, p_x} \rvert\) \(0{,}5\) \(0{,}3\) sim

Leituras-chave:

  • As três elasticidades Marshallianas são constantes em \(\alpha\) — característica peculiar da Cobb-Douglas. Diferentes expoentes geram diferentes cestas ótimas, mas as proporções de resposta da demanda a \(p_x\), \(I\) e \(p_y\) permanecem \(-1\), \(1\) e \(0\).
  • A fração de gasto coincide com o expoente (\(s_x = \alpha\)): expoente maior, bem mais importante no orçamento.
  • A Hicksiana fica mais próxima da Marshalliana quando o bem tem menor peso no orçamento. No cenário \(\alpha = 0{,}3\), \(|e_{x^c, p_x}| = 0{,}7\) está a apenas \(0{,}3\) da Marshalliana; no cenário \(\alpha = 0{,}5\), a distância é \(0{,}5\). Isso ilustra concretamente a observação de que Marshalliana e Hicksiana convergem quando \(s_x \to 0\).

Para um cenário extremo (\(\alpha \to 0\), bem com participação desprezível no orçamento), teríamos \(e_{x^c, p_x} \to -1 = e_{x, p_x}\) — as duas elasticidades coincidem.

Interpretação

Elasticidades são o padrão empírico para descrever respostas da demanda porque são adimensionais: comparáveis entre bens, mercados e períodos. A Marshalliana fornece as elasticidades observáveis; a Hicksiana fornece a contraparte teoricamente limpa, depurada do efeito renda via Slutsky em forma de elasticidade.

A Cobb-Douglas produz elasticidades constantes (\(-1\), \(1\), \(0\)), caso especial em que a receita total é invariante ao preço. Formas mais flexíveis (CES, Stone-Geary, AIDS) permitem elasticidades variáveis ao longo da curva de demanda, capturando regularidades empíricas como a Lei de Engel (Note 5.2). As três relações de agregação (homogeneidade, Engel, Cournot) funcionam como testes de consistência: qualquer sistema de demanda estimado que as viole está em conflito com a hipótese de maximização racional do consumidor.

Referências