Por que usar elasticidade em vez de inclinação? A elasticidade é adimensional, ou seja, não depende das unidades de medida. A inclinação \(dQ/dp\) muda se o preço é medido em centavos ou em reais, mas a elasticidade permanece a mesma. Isso torna as comparações entre mercados e países diretamente interpretáveis (Nicholson e Snyder, 2018).
Formalização Matemática
Há três caminhos equivalentes para calcular a elasticidade-preço da demanda.
onde \(\bar{Q} = (Q_1 + Q_2)/2\) e \(\bar{P} = (P_1 + P_2)/2\). Esse método é útil para variações discretas grandes, pois a elasticidade calculada é simétrica e não depende de qual ponto é o inicial.
Caminho 3: elasticidade-ponto (derivada)
A partir da definição de variação percentual, derivamos a fórmula do ponto passo a passo:
Note que, ao longo de uma curva de demanda linear, a elasticidade varia: ela é mais elástica onde o preço é alto e a quantidade é baixa.
Classificação
Tipo
Condição
Curva
Significado
Perfeitamente elástica
\(|\varepsilon| = \infty\)
Horizontal
Qualquer aumento de preço zera a demanda
Elástica
\(|\varepsilon| > 1\)
Pouco inclinada
A quantidade reage proporcionalmente mais do que o preço
Unitária
\(|\varepsilon| = 1\)
Inclinação intermediária
A variação percentual de \(Q\) iguala a de \(P\)
Inelástica
\(|\varepsilon| < 1\)
Muito inclinada
A quantidade reage proporcionalmente menos do que o preço
Perfeitamente inelástica
\(|\varepsilon| = 0\)
Vertical
O preço não afeta a quantidade demandada
Exercício Resolvido
Perloff (2022), Problema Resolvido 2.2: A demanda linear de milho nos EUA é \(Q = 15{,}6 - 0{,}5p\) (bilhões de bushels/ano; preço em $/bushel). Calcule a elasticidade-preço da demanda no ponto \(p = \$7{,}20\).
Solução:
Calcule a quantidade no ponto de avaliação: \[Q = 15{,}6 - 0{,}5 \times 7{,}20 = 15{,}6 - 3{,}6 = 12 \text{ bilhões de bushels}\]
Aplique a fórmula da elasticidade-ponto: \[\varepsilon = -b \cdot \frac{p}{Q} = -0{,}5 \times \frac{7{,}20}{12} = -0{,}3\]
Interpretação: \(|\varepsilon| = 0{,}3 < 1\), portanto a demanda é inelástica. Um aumento de 1% no preço reduz a quantidade demandada em apenas 0,3%.
Implementação em R
Código
suppressPackageStartupMessages({library(ggplot2)library(dplyr)library(latex2exp)})# Parâmetros da demanda: Q = 15.6 - 0.5*p => p = 31.2 - 2*Q (convenção: P no eixo y)a <-15.6b <-0.5# Curva de demanda: Q de 0 a 15.6q_seq <-seq(0, 15.6, by =0.1)p_seq <- (a - q_seq) / b # p = (a - Q) / b = 31.2 - 2*Qdados_demanda <-data.frame(q = q_seq, p = p_seq)# Ponto de avaliaçãoq0 <-12p0 <-7.20eps <--b * (p0 / q0) # -0.3ggplot() +geom_line(data = dados_demanda,aes(x = q, y = p),color ="steelblue",linewidth =1.4 ) +geom_point(aes(x = q0, y = p0),color ="steelblue",size =4 ) +geom_segment(aes(x = q0, xend = q0, y =0, yend = p0),linetype ="dashed", color ="gray50", linewidth =0.8 ) +geom_segment(aes(x =0, xend = q0, y = p0, yend = p0),linetype ="dashed", color ="gray50", linewidth =0.8 ) +annotate("label", x = q0 +1.2, y = p0 +2.5,label ="\u03B5 = -0,3 (Q = 12, P = $7,20)",fill ="white", label.size =0.3,size =4.5, color ="steelblue", fontface ="bold" ) +annotate("label", x =13, y =20,label =TeX(r"(D: $Q = 15{,}6 - 0{,}5p$)"),fill ="white", label.size =0.3,size =5.5, color ="steelblue" ) +scale_x_continuous(breaks =seq(0, 16, by =2),limits =c(0, 17),expand =c(0, 0) ) +scale_y_continuous(breaks =seq(0, 32, by =4),limits =c(0, 34),expand =c(0, 0) ) +labs(title ="Demanda linear de milho nos EUA",subtitle =TeX(r"($Q = 15{,}6 - 0{,}5p$ | Ponto de avaliação: $p = \$7{,}20$)"),x =TeX(r"(Quantidade $Q$ (bilhões de bushels/ano))"),y =TeX(r"(Preço $p$ (\$/bushel))") ) +theme_minimal() +theme(plot.title =element_text(size =18, face ="bold"),plot.subtitle =element_text(size =14),axis.line =element_line(color ="black", linewidth =0.5),axis.title =element_text(size =16, face ="bold"),axis.text =element_text(size =14),legend.text =element_text(size =13),legend.position ="bottom" )
Exercício Adicional
Exercício (Pindyck, 2013, Cap. 2): Considere a demanda de trigo nos EUA. Se o preço sobe de $4 para $5 por bushel e a quantidade cai de 15 para 12 bilhões de bushels, calcule a elasticidade-preço da demanda pelo método do ponto médio.
Interpretação
A elasticidade-preço calculada para o milho (\(\varepsilon = -0{,}3\)) indica que a demanda é inelástica: variações de preço têm efeitos proporcionalmente menores sobre a quantidade demandada. Esse resultado é típico de commodities agrícolas, pois o milho possui poucos substitutos próximos no curto prazo e faz parte de cadeias de consumo essenciais (alimentação, combustível). Produtores de bens com demanda inelástica têm maior poder de repasse de custos ao consumidor, pois aumentos de preço reduzem pouco a quantidade vendida e, portanto, a receita total aumenta com o preço.
Tip 2.2: Formas da função de demanda e elasticidade
Parte 1: demanda linear
Elasticidade varia ao longo da curva
Em uma demanda linear \(Q = a - bp\), a elasticidade \(\varepsilon = -b \cdot p/Q\) varia ao longo da curva mesmo que a inclinação seja constante (Perloff, 2022):
A intuição: mesmo que a inclinação \(-b\) seja constante, a razão \(p/Q\) varia. No topo da curva (preço elevado, quantidade baixa) a razão \(p/Q\) é alta, tornando a demanda elástica. Na base (preço baixo, quantidade alta) a razão é baixa, tornando a demanda inelástica.
Exemplo: demanda de café
Considere a demanda de café \(Q = 12 - p\) (milhões de toneladas/ano, preço em $/lb), baseada na Figura 2.9 de Perloff (2022). Aplicando a elasticidade-ponto:
Note que a mesma curva de demanda é inelástica na parte inferior e elástica na parte superior.
Código
suppressPackageStartupMessages({library(ggplot2)library(dplyr)library(latex2exp)})# Demanda de café: Q = 12 - p => p = 12 - Q (P no eixo y)q_seq <-seq(0, 12, by =0.1)p_seq <-12- q_seqdados <-data.frame(q = q_seq, p = p_seq)# Pontos de avaliaçãopts <-data.frame(q =c(9, 6, 3),p =c(3, 6, 9),eps =c(-1/3, -1, -3),lab =c("ε = −1/3\n(inelástica)", "ε = −1\n(unitária)", "ε = −3\n(elástica)"))ggplot() +# Região inelástica (p < 6)annotate("rect",xmin =6, xmax =12, ymin =0, ymax =6,fill ="#cce5ff", alpha =0.45 ) +# Região elástica (p > 6)annotate("rect",xmin =0, xmax =6, ymin =6, ymax =12,fill ="#ffcccc", alpha =0.45 ) +# Curva de demandageom_line(data = dados,aes(x = q, y = p),color ="steelblue",linewidth =1.4 ) +# Pontos marcadosgeom_point(data = pts,aes(x = q, y = p),color =c("steelblue", "darkgreen", "steelblue"),size =4 ) +# Rótulos de elasticidadeannotate("label", x =9+0.5, y =4.5,label ="\u03B5 = -1/3 (inel\u00E1stica)",fill ="white", label.size =0.3,size =4, color ="steelblue", fontface ="bold" ) +annotate("label", x =6+1.3, y =6,label ="\u03B5 = -1 (unit\u00E1ria)",fill ="white", label.size =0.3,size =4, color ="darkgreen", fontface ="bold" ) +annotate("label", x =3+1.3, y =9,label ="\u03B5 = -3 (el\u00E1stica)",fill ="white", label.size =0.3,size =4, color ="steelblue", fontface ="bold" ) +# Anotações de regiõesannotate("label", x =2, y =11.5,label ="El\u00E1stica (|\u03B5| > 1)",fill ="#ffcccc", label.size =0.3,size =4, color ="darkred" ) +annotate("label", x =11, y =2.3,label ="Inel\u00E1stica (|\u03B5| < 1)",fill ="#cce5ff", label.size =0.3,size =4, color ="darkblue" ) +annotate("label", x =10, y =8,label =TeX(r"(D: $Q = 12 - p$)"),fill ="white", label.size =0.3,size =5.5, color ="steelblue" ) +scale_x_continuous(breaks =seq(0, 12, by =2),limits =c(0, 14),expand =c(0, 0) ) +scale_y_continuous(breaks =seq(0, 12, by =2),limits =c(0, 13),expand =c(0, 0) ) +labs(title ="Elasticidade ao longo da curva de demanda linear",subtitle =TeX(r"($Q = 12 - p$ | Café (Perloff, Fig. 2.9))"),x =TeX(r"(Quantidade $Q$ (milhões de ton./ano))"),y =TeX(r"(Preço $p$ (\$/lb))") ) +theme_minimal() +theme(axis.line =element_line(color ="black", linewidth =0.5),plot.title =element_text(size =18, face ="bold"),plot.subtitle =element_text(size =14),axis.title =element_text(size =16, face ="bold"),axis.text =element_text(size =14),legend.text =element_text(size =13),legend.position ="bottom" )
Parte 2: demanda com elasticidade constante
A elasticidade varia ao longo da maioria das curvas de demanda, não apenas das lineares. Porém, existe uma classe especial de curvas em que a elasticidade é a mesma em todos os pontos (Perloff, 2022, pp. 57–58). Essas curvas têm a forma:
\[Q = Ap^\varepsilon\]
onde \(Q\) é a quantidade demandada, \(p\) é o preço, \(A > 0\) é uma constante de escala e \(\varepsilon < 0\) é a elasticidade-preço (constante ao longo de toda a curva).
Exemplo: a demanda estimada para apps na Apple Store é \(Q = 1{,}4p^{-2}\), onde \(A = 1{,}4\) (a quantidade seria 1,4 milhão de apps se o preço fosse $1) e \(\varepsilon = -2\) (Ghose e Han, 2014, conforme citado em Perloff). Um aumento de 1% no preço sempre reduz a demanda em 2%, independentemente do nível de preço.
Prova de que a elasticidade é constante
Queremos mostrar que, para \(Q = Ap^\varepsilon\), a elasticidade é igual a \(\varepsilon\) em qualquer ponto da curva. Usamos a definição \(E = \frac{dQ}{dp} \cdot \frac{p}{Q}\) e calculamos cada termo.
Passo 1: derivar \(Q = Ap^\varepsilon\) em relação a \(p\).
A constante \(A\) permanece e aplicamos a regra da potência ao termo \(p^\varepsilon\) (derivada de \(p^n\) é \(n \cdot p^{n-1}\)):
\[\frac{dQ}{dp} = A \cdot \varepsilon \cdot p^{\varepsilon - 1} = \varepsilon A p^{\varepsilon - 1}\]
Passo 2: montar a fórmula da elasticidade.
Substituímos \(dQ/dp\) e \(Q = Ap^\varepsilon\) na definição:
\[E = \underbrace{\varepsilon A p^{\varepsilon - 1}}_{\text{derivada}} \cdot \frac{p}{\underbrace{Ap^\varepsilon}_{Q}}\]
Passo 3: cancelar \(A\).
O fator \(A\) aparece no numerador (da derivada) e no denominador (de \(Q\)):
O resultado confirma: a elasticidade é exatamente \(-2\) (o expoente da função), independentemente do ponto escolhido.
Parte 3: logaritmos e formas funcionais
Por que a economia usa logaritmos?
O uso de logaritmos em modelos econômicos tem uma razão prática: para variações pequenas, \(\Delta \ln X \approx \Delta X / X\), ou seja, a variação do logaritmo aproxima a variação percentual (Wooldridge, 2020, cap. 2 e 6). Dependendo de quais variáveis estão em log, a interpretação do coeficiente \(\beta_1\) muda:
Especificação
Equação
Interpretação de \(\beta_1\)
Lin-lin
\(Q = \beta_0 + \beta_1 p\)
\(\Delta p = 1\) unidade \(\Rightarrow\)\(\Delta Q = \beta_1\) unidades
Log-log
\(\ln Q = \beta_0 + \beta_1 \ln p\)
\(\uparrow 1\%\) em \(p\)\(\Rightarrow\)\(\Delta Q = \beta_1\%\) (elasticidade)
Derivando ambos os lados em relação a \(p\): \(\frac{1}{Q} \cdot \frac{dQ}{dp} = \beta_1 \cdot \frac{1}{p}\), logo \(\frac{dQ}{dp} = \beta_1 \cdot \frac{Q}{p}\). Substituindo:
Resumo: apenas a especificação log-log produz elasticidade constante. Nas outras três, a elasticidade varia conforme o ponto na curva.
Formato das curvas de demanda
Código
suppressPackageStartupMessages({library(ggplot2)library(patchwork)library(latex2exp)})# Tema comumtema <-theme_minimal() +theme(plot.title =element_text(size =14, face ="bold"),plot.subtitle =element_text(size =11),axis.line =element_line(color ="black", linewidth =0.5),axis.title =element_text(size =12, face ="bold"),axis.text =element_text(size =11) )p_seq <-seq(1, 20, length.out =300)# 1. Lin-lin: Q = 100 - 4pq_linlin <-100-4* p_seqd_linlin <-data.frame(p = p_seq, q = q_linlin)d_linlin <- d_linlin[d_linlin$q >0, ]p1 <-ggplot(d_linlin, aes(x = q, y = p)) +geom_line(color ="steelblue", linewidth =1.3) +annotate("label", x =60, y =15,label =TeX(r"($Q = 100 - 4p$)"),fill ="white", label.size =0.3,size =4, color ="steelblue") +annotate("label", x =76, y =12,label =TeX(r"($E = \beta_1 \cdot p / Q$ (varia))"),fill ="white", label.size =0.3,size =3.5, color ="gray40", fontface ="italic") +scale_x_continuous(limits =c(0, 100), expand =c(0, 0)) +scale_y_continuous(limits =c(0, 25), expand =c(0, 0)) +labs(title =TeX(r"(Lin-lin: $Q = \beta_0 + \beta_1 p$)"),x =TeX(r"($Q$)"),y =TeX(r"($p$)") ) + tema# 2. Log-log: Q = 1.4 * p^(-2) => curva convexaq_loglog <-1.4* p_seq^(-2)d_loglog <-data.frame(p = p_seq, q = q_loglog)d_loglog <- d_loglog[d_loglog$q <=2, ]p2 <-ggplot(d_loglog, aes(x = q, y = p)) +geom_line(color ="tomato", linewidth =1.3) +annotate("label", x =1.0, y =15,label =TeX(r"($Q = 1{,}4 \cdot p^{-2}$)"),fill ="white", label.size =0.3,size =4, color ="tomato") +annotate("label", x =1.0, y =12,label ="E = \u03B5 = -2 (constante)",fill ="white", label.size =0.3,size =3.5, color ="gray40", fontface ="italic") +scale_x_continuous(limits =c(0, 2), expand =c(0, 0)) +scale_y_continuous(limits =c(0, 25), expand =c(0, 0)) +labs(title =TeX(r"(Log-log: $\ln Q = \beta_0 + \beta_1 \ln p$)"),x =TeX(r"($Q$)"),y =TeX(r"($p$)") ) + tema# 3. Log-lin: ln Q = 5 - 0.15p => Q = exp(5 - 0.15p)q_loglin <-exp(5-0.15* p_seq)d_loglin <-data.frame(p = p_seq, q = q_loglin)p3 <-ggplot(d_loglin, aes(x = q, y = p)) +geom_line(color ="darkgreen", linewidth =1.3) +annotate("label", x =80, y =15,label =TeX(r"($\ln Q = 5 - 0{,}15p$)"),fill ="white", label.size =0.3,size =4, color ="darkgreen") +annotate("label", x =80, y =12,label =TeX(r"($E = \beta_1 \cdot p$ (depende de $p$))"),fill ="white", label.size =0.3,size =3.5, color ="gray40", fontface ="italic") +scale_x_continuous(limits =c(0, 160), expand =c(0, 0)) +scale_y_continuous(limits =c(0, 25), expand =c(0, 0)) +labs(title =TeX(r"(Log-lin: $\ln Q = \beta_0 + \beta_1 p$)"),x =TeX(r"($Q$)"),y =TeX(r"($p$)") ) + tema# 4. Lin-log: Q = 100 - 30 ln(p)q_linlog <-100-30*log(p_seq)d_linlog <-data.frame(p = p_seq, q = q_linlog)d_linlog <- d_linlog[d_linlog$q >0, ]p4 <-ggplot(d_linlog, aes(x = q, y = p)) +geom_line(color ="purple", linewidth =1.3) +annotate("label", x =50, y =15,label =TeX(r"($Q = 100 - 30 \ln(p)$)"),fill ="white", label.size =0.3,size =4, color ="purple") +annotate("label", x =50, y =12,label =TeX(r"($E = \beta_1 / Q$ (depende de $Q$))"),fill ="white", label.size =0.3,size =3.5, color ="gray40", fontface ="italic") +scale_x_continuous(limits =c(0, 100), expand =c(0, 0)) +scale_y_continuous(limits =c(0, 25), expand =c(0, 0)) +labs(title =TeX(r"(Lin-log: $Q = \beta_0 + \beta_1 \ln p$)"),x =TeX(r"($Q$)"),y =TeX(r"($p$)") ) + tema(p1 + p2) / (p3 + p4) +plot_annotation(title ="Quatro formas funcionais da curva de demanda",subtitle ="Cada especificação gera um formato diferente de curva e uma fórmula diferente de elasticidade",theme =theme(plot.title =element_text(size =18, face ="bold"),plot.subtitle =element_text(size =14) ) )
Observe que cada especificação gera um formato diferente de curva: a lin-lin é uma reta, a log-log é uma hipérbole convexa, a log-lin decai exponencialmente e a lin-log tem formato logarítmico.
Quando usar cada especificação?
A escolha da forma funcional não é arbitrária. Ela reflete uma hipótese sobre como os agentes econômicos respondem a variações de preço: em termos absolutos ou percentuais? (Wooldridge, 2020, seção 6.2; Perloff, 2022, pp. 57–58)
Especificação
Hipótese sobre o comportamento
Quando faz sentido
Lin-lin
Uma variação absoluta fixa no preço (\(\Delta p = 1\)) causa sempre a mesma variação absoluta na quantidade
Relações aproximadamente lineares em faixas estreitas de preço. Exemplo: demanda local por um produto com preço regulado
Log-log
Uma variação percentual no preço (\(\uparrow 1\%\)) causa sempre a mesma variação percentual na quantidade
A maioria dos mercados. Agentes respondem a variações proporcionais: um aumento de 10% no preço importa igualmente se o preço é R$ 5 ou R$ 50. É a especificação padrão em microeconomia empírica
Log-lin
Uma variação absoluta fixa no preço causa sempre a mesma variação percentual na quantidade
Bens com tarifas reguladas ou preços administrados, onde a estrutura tarifária opera em valores absolutos. Exemplo: tarifa de água ou energia elétrica por faixa de consumo
Lin-log
Uma variação percentual no preço causa sempre a mesma variação absoluta na quantidade
Mercados onde o efeito do preço se esgota com o aumento da quantidade. Exemplo: gastos com publicidade (dobrar o investimento não dobra as vendas, apenas adiciona um número fixo de clientes)
A especificação log-log domina a literatura empírica em microeconomia porque a maioria das decisões econômicas responde a incentivos proporcionais, não absolutos. Um consumidor que reduz o consumo de gasolina em 5% quando o preço sobe 10% tende a manter essa proporção independentemente de o litro custar R$ 5 ou R$ 10.
Tip 2.3: Elasticidade e receita total
Desenvolvimento Teórico
A receita total é definida como \(R = p \cdot Q\). A questão central: quando uma firma altera seu preço, a receita sobe ou cai? A resposta depende da elasticidade da demanda (Nicholson e Snyder, 2018; Perloff, 2022).
Elasticidade
\(P \uparrow\)
\(P \downarrow\)
\(|\varepsilon| > 1\) (elástica)
\(RT \downarrow\)
\(RT \uparrow\)
\(|\varepsilon| = 1\) (unitária)
\(RT\) não muda
\(RT\) não muda
\(|\varepsilon| < 1\) (inelástica)
\(RT \uparrow\)
\(RT \downarrow\)
Formalização Matemática
Partindo de \(R = p \cdot Q(p)\), aplicamos a regra do produto:
Conclusão: como a demanda é elástica (\(|E| > 1\)), a queda na quantidade é proporcionalmente maior que o aumento no preço, e a firma aumenta sua receita reduzindo o preço.
Implementação em R
Código
suppressPackageStartupMessages({library(ggplot2)library(dplyr)library(patchwork)library(latex2exp)})# Demanda linear: Q = 12 - p => p = 12 - Q# Receita total: R(p) = p * (12 - p) = 12p - p^2q_seq <-seq(0, 12, by =0.1)p_seq <-12- q_seq # p no eixo ydados_d <-data.frame(q = q_seq, p = p_seq)# Painel superior: curva de demanda com regiõesp_demand <-ggplot() +# Região inelástica (p < 6, q > 6)annotate("rect",xmin =6, xmax =12, ymin =0, ymax =6,fill ="#cce5ff", alpha =0.45 ) +# Região elástica (p > 6, q < 6)annotate("rect",xmin =0, xmax =6, ymin =6, ymax =12,fill ="#ffcccc", alpha =0.45 ) +geom_line(data = dados_d,aes(x = q, y = p),color ="steelblue",linewidth =1.4 ) +geom_point(aes(x =6, y =6), color ="darkgreen", size =4) +geom_segment(aes(x =6, xend =6, y =0, yend =6),linetype ="dashed", color ="gray50", linewidth =0.8 ) +geom_segment(aes(x =0, xend =6, y =6, yend =6),linetype ="dashed", color ="gray50", linewidth =0.8 ) +annotate("label", x =6+1.0, y =7,label ="\u03B5 = -1 (ponto m\u00E9dio)",fill ="white", label.size =0.3,size =4, color ="darkgreen", fontface ="bold" ) +annotate("label", x =3, y =10.5,label ="El\u00E1stica (|\u03B5| > 1)",fill ="#ffcccc", label.size =0.3,size =4, color ="darkred" ) +annotate("label", x =11, y =3,label ="Inel\u00E1stica (|\u03B5| < 1)",fill ="#cce5ff", label.size =0.3,size =4, color ="darkblue" ) +annotate("label", x =10.5, y =8,label =TeX(r"(D: $Q = 12 - p$)"),fill ="white", label.size =0.3,size =5.5, color ="steelblue" ) +scale_x_continuous(breaks =seq(0, 12, by =2),limits =c(0, 13),expand =c(0, 0) ) +scale_y_continuous(breaks =seq(0, 12, by =2),limits =c(0, 13),expand =c(0, 0) ) +labs(title =TeX(r"(Curva de demanda: $Q = 12 - p$)"),x =TeX(r"(Quantidade ($Q$))"),y =TeX(r"(Preço ($p$))") ) +theme_minimal() +theme(plot.title =element_text(size =18, face ="bold"),plot.subtitle =element_text(size =14),axis.line =element_line(color ="black", linewidth =0.5),axis.title =element_text(size =16, face ="bold"),axis.text =element_text(size =14),legend.text =element_text(size =13),legend.position ="bottom" )# Painel inferior: receita total R(p) = p*(12-p)p_vals <-seq(0, 12, by =0.1)r_vals <- p_vals * (12- p_vals)dados_r <-data.frame(p = p_vals, r = r_vals)p_revenue <-ggplot() +geom_line(data = dados_r,aes(x = p, y = r),color ="darkorange",linewidth =1.4 ) +geom_point(aes(x =6, y =36), color ="darkgreen", size =4) +geom_segment(aes(x =6, xend =6, y =0, yend =36),linetype ="dashed", color ="gray50", linewidth =0.8 ) +annotate("label", x =6+1.5, y =36,label ="RT m\u00E1x = 36 (p = 6, \u03B5 = -1)",fill ="white", label.size =0.3,size =4, color ="darkgreen", fontface ="bold" ) +annotate("label", x =1.5, y =23,label ="RT sobe\ncom p\n(inelástica)",fill ="#cce5ff", label.size =0.3,size =3.8, color ="darkblue" ) +annotate("label", x =10.5, y =23,label ="RT cai\ncom p\n(elástica)",fill ="#ffcccc", label.size =0.3,size =3.8, color ="darkred" ) +scale_x_continuous(breaks =seq(0, 12, by =2),limits =c(0, 13),expand =c(0, 0) ) +scale_y_continuous(breaks =seq(0, 36, by =6),limits =c(0, 40),expand =c(0, 0) ) +labs(title =TeX(r"(Receita total: $R(p) = p \cdot (12 - p)$)"),x =TeX(r"(Preço ($p$))"),y =TeX(r"(Receita total ($R$))") ) +theme_minimal() +theme(plot.title =element_text(size =18, face ="bold"),plot.subtitle =element_text(size =14),axis.line =element_line(color ="black", linewidth =0.5),axis.title =element_text(size =16, face ="bold"),axis.text =element_text(size =14),legend.text =element_text(size =13),legend.position ="bottom" )p_demand / p_revenue
A receita total é constante, crescente ou decrescente em \(p\)? Explique usando a relação \(dR/dp = Q(1 + \varepsilon)\).
Interpretação
O gráfico duplo revela a conexão íntima entre elasticidade e receita. A receita atinge seu pico exatamente no ponto de elasticidade unitária, o “ponto ideal” para a firma. Na porção elástica, reduzir o preço atrai clientes proporcionalmente mais, elevando a receita. Na porção inelástica, elevar o preço perde clientes proporcionalmente menos, também elevando a receita. Esse resultado é fundamental para a estratégia de precificação.
Tip 2.4: Elasticidade-renda e elasticidade-preço cruzada
Desenvolvimento Teórico: elasticidade-renda
A elasticidade-renda da demanda mede a variação percentual na quantidade demandada em resposta a uma variação percentual na renda. Formalmente (Perloff, 2022):
onde \(Q\) é a quantidade demandada (milhões de toneladas/ano), \(p\) é o preço do café ($/lb), \(p_s\) é o preço do açúcar ($/lb) e \(Y\) é a renda (milhares de dólares). No equilíbrio, \(Q = 10\), \(p_s = \$0{,}20\)/lb e \(Y = 35\).
Calcule a elasticidade-renda e a elasticidade cruzada café-açúcar. Classifique os bens.
Elasticidade-renda:
A derivada parcial de \(Q\) em relação a \(Y\) é \(\frac{\partial Q}{\partial Y} = 0{,}1\). Substituindo na fórmula:
Como \(E_R^D = 0{,}35 > 0\), o café é um bem normal (a demanda cresce com a renda). Como \(E_R^D < 1\), é classificado como necessidade: um aumento de 10% na renda eleva a demanda por café em apenas 3,5%.
Elasticidade cruzada café-açúcar:
A derivada parcial de \(Q\) em relação a \(p_s\) é \(\frac{\partial Q}{\partial p_s} = -0{,}3\). Substituindo:
Como \(E_{XY}^D < 0\), café e açúcar são complementares: um aumento no preço do açúcar reduz a demanda por café. Porém, o efeito é muito fraco: um aumento de 1% no preço do açúcar reduz a demanda por café em apenas 0,006%.
Exercício Adicional
Exercício (Pindyck e Rubinfeld, 2013, cap. 2): Um estudo estimou que a elasticidade-renda da demanda por refeições em restaurantes é 1,4 e por alimentos consumidos em casa é 0,4. (a) Classifique cada bem. (b) Se a renda aumenta 10%, qual o efeito sobre a quantidade demandada de cada um? (c) Como a Lei de Engel se manifesta neste exemplo?
Interpretação
As elasticidades-renda e cruzada revelam como os bens se relacionam entre si e com a renda. O exemplo do café mostra que, embora café e açúcar sejam complementares, o efeito cruzado é ínfimo: um aumento de 1% no preço do açúcar reduz a demanda por café em apenas 0,006%. As elasticidades-renda são cruciais para prever o crescimento da demanda à medida que as economias se desenvolvem: bens de luxo crescem mais rapidamente do que necessidades.
Tip 2.5: Elasticidade-preço da oferta e horizonte temporal
Desenvolvimento Teórico
A elasticidade-preço da oferta mede a variação percentual na quantidade ofertada em resposta a uma variação percentual no preço:
Em geral, \(E_P^S > 0\) (lei da oferta). A classificação é análoga à da demanda: perfeitamente inelástica (\(E_P^S = 0\)), inelástica (\(0 < E_P^S < 1\)), unitária (\(E_P^S = 1\)), elástica (\(E_P^S > 1\)) e perfeitamente elástica (\(E_P^S \to \infty\)).
Resultado especial(Perloff, 2022, Problema Resolvido 2.4): qualquer oferta linear que passe pela origem tem a forma \(Q = Bp\) (com \(B > 0\)). Nesse caso, a elasticidade é unitária em todos os pontos, pois:
O \(B\) cancela, e a elasticidade não depende do ponto na curva.
Intuição econômica: quando a oferta passa pela origem, ao preço zero ninguém produz (\(Q = 0\)). A partir daí, cada aumento percentual no preço gera exatamente o mesmo aumento percentual na quantidade ofertada. Por exemplo, se \(Q = 2p\): ao preço 5 a oferta é 10, ao preço 10 a oferta é 20. O preço dobrou e a quantidade também dobrou. Isso vale em qualquer ponto da curva porque não há um “piso” de produção (intercepto) que distorça a proporção.
Quando a oferta tem intercepto positivo (\(Q = a + Bp\), com \(a > 0\)), parte da produção existe mesmo a preço zero, o que faz a elasticidade ser menor que 1. Quando tem intercepto negativo (\(a < 0\)), há um preço mínimo para começar a produzir, e a elasticidade é maior que 1.
Curto prazo vs. longo prazo
As elasticidades diferem conforme o horizonte temporal.
Demanda:
Curto prazo: mais inelástica (poucos substitutos imediatos)
Longo prazo: mais elástica (consumidores encontram substitutos e mudam hábitos)
Exemplo: gasolina. No curto prazo \(E_P^D = -0{,}16\); no longo prazo \(E_P^D = -0{,}43\) (Liddle, 2012, conforme citado em Perloff, p. 62)
Oferta:
Curto prazo: mais inelástica (capacidade fixa)
Longo prazo: mais elástica (firmas expandem e novos entrantes surgem)
Exemplo: elasticidade da oferta de serviços de saúde é 0,7 no curto prazo e 1,4 no longo prazo (Clemens e Gottlieb, 2014, conforme citado em Perloff)
Exercício Resolvido
Problema(Perloff, 2022, Equação 2.27): a função de oferta estimada para o milho nos EUA é:
\[Q = 10{,}2 + 0{,}25p\]
onde \(Q\) é a quantidade ofertada (bilhões de bushels/ano) e \(p\) é o preço (dólares/bushel). Calcule a elasticidade-preço da oferta no ponto \(p = \$7{,}20\).
A oferta é inelástica (\(E_P^S < 1\)): um aumento de 1% no preço eleva a quantidade ofertada em apenas 0,15%.
Comparação com a demanda: no Tip 2.1 calculamos a elasticidade-preço da demanda de milho como \(E_P^D = -0{,}3\). Ambas são inelásticas, mas a demanda é mais responsiva do que a oferta (\(|-0{,}3| > 0{,}15\)). Note que a oferta tem intercepto positivo (\(a = 10{,}2 > 0\)), o que significa que mesmo a preço zero haveria produção de milho, confirmando a elasticidade menor que 1 discutida acima.
Exercício Adicional
Exercício (Nicholson e Snyder, 2018, cap. 12): Mostre que a função de oferta \(Q = Bp^{E_P^S}\) com \(E_P^S = 1\) é linear e passa pela origem. (Dica: se \(E_P^S = 1\), então \(Q = Bp^1 = Bp\), que é uma reta com inclinação \(B\) passando pelo ponto \((0, 0)\).)
Interpretação
A comparação entre as elasticidades de curto e longo prazo tem implicações relevantes para a política econômica. Choques de oferta (como embargos de petróleo ou quebras de safra) causam elevações de preço maiores no curto prazo precisamente porque tanto a demanda quanto a oferta são mais inelásticas. Com o tempo, consumidores encontram substitutos e produtores ajustam a capacidade, amortecendo o efeito sobre o preço. Isso explica por que a volatilidade dos preços de commodities tende a ser mais intensa para choques de curta duração.
Tip 2.6: Aplicação: demanda de água no Nordeste brasileiro
Contexto
O setor de saneamento básico no Brasil opera sob regime de monopólio natural. Para determinar tarifas que maximizem o bem-estar social, é necessário estimar a elasticidade-preço da demanda de água. Melo e Jorge Neto (2010) estimaram a função de demanda residencial de água para a região Nordeste, utilizando dados do Banco do Nordeste (BNB, 1997) para municípios da região.
A função de demanda estimada
Os autores estimaram a seguinte função log-linear por mínimos quadrados ordinários:
\[\ln Q = 0{,}491 - 0{,}550 \ln P + 0{,}239 \ln R + 0{,}080 \ln N + 0{,}018 \ln T + 0{,}269 D_e\]
onde:
\(Q\) = consumo de água (m³/família/mês)
\(P\) = preço marginal da água (R$/m³)
\(R\) = renda do domicílio (R$/mês)
\(N\) = número de cômodos (proxy para tamanho da família ou riqueza)
\(T\) = tempo de moradia no domicílio (anos)
\(D_e\) = variável dummy para esgoto (1 se o domicílio está conectado à rede de esgoto, 0 caso contrário)
Interpretação dos coeficientes
Como a equação está na forma log-linear (\(\ln Q = \beta_0 + \beta_1 \ln P + \ldots\)), os coeficientes são diretamente as elasticidades:
Elasticidade-preço:\(E_P^D = -0{,}550\). A demanda é inelástica (\(|E_P^D| < 1\)): um aumento de 1% no preço da água reduz o consumo em 0,55%. Isso é esperado para um bem essencial com poucos substitutos.
Elasticidade-renda:\(E_R^D = 0{,}239\). A água é um bem normal (\(E_R^D > 0\)) classificado como necessidade (\(E_R^D < 1\)): um aumento de 1% na renda eleva o consumo em apenas 0,24%.
Cômodos: um aumento de 1% no número de cômodos eleva o consumo em 0,08%.
Tempo de moradia: efeito pequeno (0,018%).
Esgoto: domicílios conectados à rede de esgoto consomem mais água, pois não sofrem restrição de escoamento.
Redução à demanda em função do preço
Para obter uma curva de demanda apenas em função do preço, os autores substituíram os valores médios das demais variáveis (\(R = 307{,}96\); \(N = 4{,}47\); \(T = 10{,}13\); \(D_e = 0{,}39\)):
Que na forma exponencial equivale a \(Q = e^{2{,}668} \cdot P^{-0{,}550} \approx 14{,}41 \cdot P^{-0{,}550}\). Esta é uma demanda com elasticidade constante (como estudado no Callout 2), com \(\varepsilon = -0{,}550\) em todos os pontos da curva.
Implementação em R
Código
suppressPackageStartupMessages({library(ggplot2)})# Função de demanda reduzida: ln Q = 2.668 - 0.550 ln P# Q = exp(2.668) * P^(-0.550)A <-exp(2.668)eps <--0.550p_seq <-seq(0.5, 20, length.out =300)q_seq <- A * p_seq^epsdados <-data.frame(p = p_seq, q = q_seq)# Ponto de referência: preço médio ~ R$ 3/m³p_ref <-3q_ref <- A * p_ref^epsggplot() +geom_line(data = dados,aes(x = q, y = p),color ="steelblue",linewidth =1.4 ) +geom_point(aes(x = q_ref, y = p_ref),color ="darkred", size =4 ) +geom_segment(aes(x = q_ref, xend = q_ref, y =0, yend = p_ref),linetype ="dashed", color ="gray50" ) +geom_segment(aes(x =0, xend = q_ref, y = p_ref, yend = p_ref),linetype ="dashed", color ="gray50" ) +annotate("label", x = q_ref +2, y = p_ref +2.5,label =paste0("P = R$ ", p_ref, "/m³\n","Q = ", round(q_ref, 1), " m³/mês\n","E = -0,550 (inelástica)" ),fill ="white", label.size =0.3,size =4, color ="darkred", fontface ="bold" ) +annotate("label", x =12, y =12,label ="D:~Q == 14.4 %.% P^{-0.55}",parse =TRUE,fill ="white", label.size =0.3,size =5, color ="steelblue" ) +scale_x_continuous(breaks =seq(0, 20, by =2),limits =c(0, 20),expand =c(0, 0) ) +scale_y_continuous(breaks =seq(0, 20, by =2),limits =c(0, 20),expand =c(0, 0) ) +labs(title ="Demanda residencial de água no Nordeste",subtitle ="Melo e Jorge Neto (2010) | Elasticidade-preço constante: -0,550",x ="Consumo (m³/família/mês)",y ="Preço marginal (R$/m³)" ) +theme_minimal() +theme(plot.title =element_text(size =18, face ="bold"),plot.subtitle =element_text(size =14),axis.line =element_line(color ="black", linewidth =0.5),axis.title =element_text(size =16, face ="bold"),axis.text =element_text(size =14),legend.text =element_text(size =13),legend.position ="bottom" )
Interpretação
Este exemplo ilustra vários conceitos discutidos nos callouts anteriores:
Forma log-linear e elasticidade constante: a equação estimada está na forma \(\ln Q = \ln A + \varepsilon \ln P\), que corresponde a \(Q = AP^\varepsilon\) (ver Tip 2.2). O coeficiente de \(\ln P\) é diretamente a elasticidade-preço.
Demanda inelástica para bens essenciais: com \(E_P^D = -0{,}550\), a água se comporta como esperado para um bem essencial, com poucos substitutos no curto prazo. Mesmo aumentos significativos no preço reduzem o consumo proporcionalmente menos.
Elasticidade-renda como necessidade:\(E_R^D = 0{,}239 < 1\) confirma a Lei de Engel (ver Tip 2.4): à medida que a renda cresce, a proporção gasta com água diminui.
Implicação para política tarifária: como a demanda é inelástica, aumentos de tarifa elevam a receita das companhias de saneamento (ver Tip 2.3), mas reduzem pouco o consumo. Isso é relevante para o debate sobre regulação de preços no setor.
Referências
BERGSTROM, T. C.; VARIAN, H. R. Workouts in Intermediate Microeconomics: For Intermediate Microeconomics and Intermediate Microeconomics with Calculus. 8th. ed. New York: W. W. Norton & Company, 2009.
MELO, J. A. M. DE; JORGE NETO, P. DE M. Bem-estar social, regulação e eficiência no setor de saneamento básico. Revista Econômica do Nordeste, v. 41, n. 4, p. 763–780, 2010.
NICHOLSON, W.; SNYDER, C. Teoria microeconômica: princı́pios básicos e aplicações. [s.l.] Cengage Learning Edições, 2018.
PERLOFF, J. M. Microeconomics with Calculus, Global Edition. 5. ed. [s.l.] Pearson, 2022.
PINDYCK, R. S.; RUBINFELD, D. L. Microeconomia. [s.l.] Pearson Education do Brasil, 2013.
WOOLDRIDGE, J. M. Introductory Econometrics: A Modern Approach. 7th. ed. Boston: Cengage Learning, 2020.