Microeconomia
Universidade Federal de Mato Grosso
2026-04-17
Quando o preço de um bem muda, o que acontece com a quantidade demandada? A resposta envolve dois canais distintos que agem simultaneamente sobre a escolha do consumidor:
O objetivo deste capítulo é separar esses dois efeitos e compreender como cada um contribui para a mudança na quantidade demandada. Para isso, construiremos duas curvas de demanda distintas: a demanda Marshalliana (ou ordinária), que mantém a renda nominal fixa, e a demanda Hicksiana (ou compensada), que mantém a utilidade fixa.
A síntese formal dessa decomposição é dada pela equação de Slutsky, que expressa a derivada da demanda em relação ao preço como a soma do efeito substituição e do efeito renda.
As funções de demanda Marshallianas são homogêneas de grau zero em preços e renda:
\[x^*(tp_x, tp_y, tI) = x^*(p_x, p_y, I) \quad \forall \, t > 0\]
Intuição: multiplicar todos os preços e a renda pelo mesmo fator \(t\) não altera o conjunto orçamentário:
\[tp_x x + tp_y y = tI \iff p_x x + p_y y = I\]
Como as preferências também não mudam, o ponto ótimo é o mesmo.
Implicação econômica. Uma inflação “pura”, na qual todos os preços e a renda nominal crescem na mesma proporção, não altera as demandas reais. Apenas mudanças em preços relativos (\(p_x/p_y\)) ou na renda real (\(I/p\)) afetam as escolhas do consumidor.


Variações na renda deslocam a reta orçamentária paralelamente: a inclinação \(-p_x/p_y\) permanece inalterada, pois os preços relativos não mudam.
Bens normais: \(\partial x^*/\partial I \geq 0\)
Aumentos de renda levam a aumentos no consumo. Exemplos: viagens, carros, lazer.
Bens inferiores: \(\partial x^*/\partial I < 0\)
Aumentos de renda levam a reduções no consumo. Exemplos históricos: batatas na Irlanda, roupa de segunda mão.
Curva de Engel: relação \(x^*(I)\) mantendo \(p_x\) e \(p_y\) fixos. Mostra como a quantidade demandada responde a variações de renda.

Três cestas de referência (Fig. 5.3):
Quando \(p_x\) cai, o movimento observado \(A \to C\) se decompõe em:
\(A \to B\): efeito substituição. Reta auxiliar (tracejada) tangente a \(U_1\) com a nova inclinação; utilidade constante. Sempre \(\Delta x > 0\), o consumidor substitui em direção ao bem que ficou relativamente mais barato.
\(B \to C\): efeito renda. Removida a compensação, o consumidor se move para a curva superior \(U_2\). Bem normal: \(\Delta x > 0\) (reforça o ES). Bem inferior: \(\Delta x < 0\) (reverte parte do ES).

Mesmas três cestas da Fig. 5.3 (ver slide anterior): \(A\) (\(x^*\), \(y^*\)) inicial, \(B\) auxiliar sobre \(U_1\), \(C\) (\(x^{**}\), \(y^{**}\)) final sobre \(U_2\).
Quando \(p_x\) sobe, o movimento observado \(A \to C\) se decompõe em:
\(A \to B\): efeito substituição. Reta auxiliar tangente a \(U_1\) com a nova inclinação mais íngreme; utilidade mantida. Sempre \(\Delta x < 0\) — o consumidor se afasta do bem que ficou relativamente mais caro.
\(B \to C\): efeito renda. Renda real reduzida; o consumidor se move para a curva inferior \(U_2\). Bem normal: \(\Delta x < 0\) (reforça o ES). Bem inferior: \(\Delta x > 0\) (reverte parte do ES).
Tabela de sinais (para queda de \(p_x\), \(\Delta p_x < 0\)):
| Tipo | ES | ER | ET |
|---|---|---|---|
| Normal | \(+\) | \(+\) | \(+\) |
| Inferior | \(+\) | \(-\) | indeterminado |
| Giffen | \(+\) | \(-\) (forte) | \(-\) |
Para aumento de preço, inverter todos os sinais.
Um bem Giffen é aquele cuja quantidade demandada aumenta quando o preço sobe, violando a “lei da demanda”.
Requisitos:
Registro histórico. Robert Giffen reportou no século XIX o caso das batatas na Irlanda, quando o preço da batata subiu (após a praga da década de 1840), o consumo de batata teria aumentado entre famílias pobres, que foram forçadas a cortar gastos em alimentos “de luxo” e substituí-los pelo alimento básico.
Análises econométricas modernas questionam a ocorrência efetiva do paradoxo no caso irlandês, as evidências empíricas são frágeis. Ainda assim, o paradoxo permanece relevante como ilustração teórica do poder do efeito renda sobre bens inferiores essenciais.
Mais formalmente, o paradoxo de Giffen surge quando:
\[\left| x \cdot \frac{\partial x}{\partial I} \right| > \left| \frac{\partial x^c}{\partial p_x} \right|\]


A demanda Marshalliana (ou ordinária) \(x^*(p_x; \bar{p}_y, \bar{I})\) descreve como a quantidade ótima varia com o preço, mantendo constantes \(p_y\), \(I\) e preferências.
Propriedades:


A demanda Hicksiana (ou compensada) \(x^c(p_x, p_y, U)\) resolve o problema dual: minimizar a despesa sujeita a atingir \(\bar{U}\).
Propriedades:

As duas curvas se cruzam no ponto em que \(I\) permite exatamente atingir \(\bar{U}\) aos preços vigentes.
| Aspecto | Marshalliana | Hicksiana |
|---|---|---|
| Variável fixa | \(I\) (renda) | \(U\) (utilidade) |
| Efeito capturado | ES + ER | só ES |
| Inclinação | Normal: \(\leq 0\); Giffen: \(> 0\) | Sempre \(\leq 0\) |
| Uso típico | Estimação empírica | Análise de bem-estar |
Para bens normais, a Marshalliana é mais inclinada (em valor absoluto) que a Hicksiana, porque inclui o efeito renda em adição ao efeito substituição.
Do ponto de tangência, derivando a identidade de dualidade \(x^c = x[p_x, p_y, E(p_x, p_y, U)]\):
\[\frac{\partial x}{\partial p_x} = \underbrace{\frac{\partial x^c}{\partial p_x}\bigg|_{U=\bar{U}}}_{\text{substituição (ES)}} \;-\; \underbrace{x \cdot \frac{\partial x}{\partial I}}_{\text{renda (ER)}}\]
Sinais previstos:
| Termo | Sinal | Razão |
|---|---|---|
| ES | \(\leq 0\) | Concavidade de \(E\) em preços |
| ER, bem normal | \(< 0\) | \(\partial x/\partial I > 0\) |
| ER, bem inferior | \(> 0\) | \(\partial x/\partial I < 0\) |
| ET, bem normal | \(< 0\) | Soma de ES e ER no mesmo sentido |
| ET, Giffen | \(> 0\) | ER inferior domina ES |
Exemplo Cobb-Douglas (\(U = x^{0{,}5}y^{0{,}5}\), \(I = 8\), \(p_x = 1\), \(p_y = 4\)):
\[\underbrace{-4}_{\text{ET}} = \underbrace{-2}_{\text{ES}} + \underbrace{-2}_{\text{ER}} \quad \text{(taxa de variação } \partial x/\partial p_x \text{ no ponto } x^* = 4\text{)}\]
Derivadas dependem das unidades de medida. Elasticidades são adimensionais, permitindo comparar bens, mercados e períodos.
Definições (Marshalliana):
\[e_{x, p_x} = \frac{\partial x}{\partial p_x} \cdot \frac{p_x}{x}, \qquad e_{x, I} = \frac{\partial x}{\partial I} \cdot \frac{I}{x}, \qquad e_{x, p_y} = \frac{\partial x}{\partial p_y} \cdot \frac{p_y}{x}\]
Gasto total e elasticidade-preço. Derivando \(p_x \cdot x\) pela regra do produto:
\[\frac{\partial (p_x \cdot x)}{\partial p_x} = x + p_x \cdot \frac{\partial x}{\partial p_x} = x \, (1 + e_{x, p_x})\]
| Caso | Valor | Sinal de \((1 + e_{x, p_x})\) | Gasto total \(p_x x\) com alta de \(p_x\) |
|---|---|---|---|
| Elástica | \(e_{x, p_x} < -1\) | \(< 0\) | cai |
| Unitária | \(e_{x, p_x} = -1\) | \(= 0\) | constante |
| Inelástica | \(-1 < e_{x, p_x} < 0\) | \(> 0\) | sobe |
Cobb-Douglas \(U = x^\alpha y^{1-\alpha}\): \(\;e_{x, p_x} = -1, \; e_{x, I} = 1, \; e_{x, p_y} = 0\) — elasticidades constantes em todo ponto, receita total invariante a \(p_x\).
Slutsky em forma de elasticidade. Multiplicando a equação de Slutsky por \(p_x/x\) e reagrupando:
\[\frac{\partial x}{\partial p_x} \cdot \frac{p_x}{x} = \frac{\partial x^c}{\partial p_x} \cdot \frac{p_x}{x^c} - \underbrace{\frac{p_x x}{I}}_{s_x} \cdot \underbrace{\frac{\partial x}{\partial I} \cdot \frac{I}{x}}_{e_{x, I}}\]
\[\boxed{e_{x, p_x} = e_{x^c, p_x} - s_x \, e_{x, I}}\]
Marshalliana e Hicksiana coincidem quando \(s_x \to 0\) (participação pequena no orçamento) ou \(e_{x, I} \to 0\) (bem renda-inelástico).
Três restrições internas (com \(s_x = p_x x/I\) e \(s_y = p_y y/I\)):
| Relação | Expressão | Origem |
|---|---|---|
| Homogeneidade | \(e_{x, p_x} + e_{x, p_y} + e_{x, I} = 0\) | Euler, demanda é grau 0 em \((p_x, p_y, I)\) |
| Agregação de Engel | \(s_x \, e_{x, I} + s_y \, e_{y, I} = 1\) | derivando \(I = p_x x + p_y y\) em \(I\) |
| Agregação de Cournot | \(s_x \, e_{x, p_x} + s_y \, e_{y, p_x} = -s_x\) | derivando \(I = p_x x + p_y y\) em \(p_x\) |
Verificação para Cobb-Douglas (\(\alpha = 0{,}5\), logo \(s_x = \alpha, \; s_y = 1-\alpha\)):