Maximização da Utilidade e Escolha

Microeconomia

Roney Fraga Souza

Universidade Federal de Mato Grosso

2026-04-09

O problema do consumidor

O consumidor deseja maximizar sua satisfação sujeito à sua renda e aos preços de mercado. Este é o problema central da teoria do consumidor:

\[\max_{x,y} \; U(x, y) \quad \text{sujeito a} \quad p_x x + p_y y \leq I\]

onde \(p_x\) e \(p_y\) são os preços dos bens \(x\) e \(y\), e \(I\) é a renda do consumidor.


A solução desse problema fornece as funções de demanda do consumidor — as quantidades ótimas de cada bem como função dos preços e da renda.


Resultado central: no ponto ótimo, a taxa marginal de substituição iguala a razão de preços:

\[TMS = \frac{p_x}{p_y}\]

Essa condição tem uma interpretação econômica precisa: o valor subjetivo de trocar \(y\) por \(x\) (TMS) deve igualar o custo de mercado dessa troca (\(p_x/p_y\)).

Restrição orçamentária

Nicholson, Figure 4.1

A restrição orçamentária \(p_x x + p_y y = I\) define o conjunto de cestas acessíveis ao consumidor.

Interceptos:

  • Eixo \(y\): \(I/p_y\) — quantidade máxima de \(y\) se toda a renda for gasta em \(y\)
  • Eixo \(x\): \(I/p_x\) — quantidade máxima de \(x\) se toda a renda for gasta em \(x\)

Inclinação: \(-p_x/p_y\)

A inclinação negativa indica o custo de oportunidade: para obter uma unidade a mais de \(x\), o consumidor deve abrir mão de \(p_x/p_y\) unidades de \(y\).

O conjunto orçamentário é a área triangular abaixo da reta: todas as cestas \((x, y)\) com \(p_x x + p_y y \leq I\).

Maximização gráfica

Nicholson, Figure 4.2

O ponto ótimo é onde a curva de indiferença mais alta é tangente à restrição orçamentária: o ponto \(C = (x^*, y^*)\).

Por que os outros pontos são subótimos?

  • Ponto \(A\): está sobre a restrição orçamentária, mas em uma curva de indiferença inferior (\(U_1 < U_2\)). O consumidor poderia fazer melhor
  • Ponto \(B\): também acessível e também em \(U_1\). Simetricamente subótimo
  • Ponto \(D\): está em uma curva de indiferença superior (\(U_3 > U_2\)), mas fora do conjunto orçamentário — inacessível

No ponto \(C\), a inclinação da curva de indiferença (TMS) iguala a inclinação da restrição orçamentária (\(p_x/p_y\)): condição de ótimo.

Condição de ótimo: \(TMS = p_x/p_y\)

No ponto de tangência (Figura 4.2), as inclinações são iguais:

\[\underbrace{TMS = \frac{U_x}{U_y}}_{\text{trade-off psíquico}} = \underbrace{\frac{p_x}{p_y}}_{\text{trade-off de mercado}}\]


Se \(TMS \neq p_x/p_y\), o consumidor pode realocar e melhorar:

Situação Significado Ação
\(TMS > p_x/p_y\) Valora \(x\) mais que o mercado Comprar mais \(x\), menos \(y\)
\(TMS < p_x/p_y\) Valora \(x\) menos que o mercado Comprar menos \(x\), mais \(y\)
\(TMS = p_x/p_y\) Equilíbrio Nenhuma melhoria possível

Condições de 2ª ordem

Nicholson, Figure 4.3

A tangência entre uma curva de indiferença e a restrição orçamentária é condição necessária, mas não suficiente para um máximo.

O que garante que é um máximo (e não um mínimo)?

A condição de segunda ordem exige que as curvas de indiferença sejam estritamente convexas — a TMS deve ser decrescente ao longo da curva de indiferença.

  • Na figura, o ponto \(A\) satisfaz \(TMS = p_x/p_y\) mas é um mínimo de utilidade sujeito à restrição, pois as curvas de indiferença são côncavas naquela região
  • Com TMS decrescente (convexidade), o ponto de tangência é de fato um máximo

A hipótese de TMS decrescente (convexidade das preferências) garante que a condição de primeira ordem seja suficiente para o máximo global.

Soluções de canto

Nicholson, Figure 4.4

Nem sempre a solução ótima é interior (\(x^* > 0\) e \(y^* > 0\)). Quando as preferências do consumidor levam a uma solução de canto, ele consome apenas um dos bens.

Caso ilustrado: o consumidor prefere tão fortemente o bem \(x\) que, no ótimo, \(y^* = 0\) e toda a renda é gasta em \(x\).

A condição de tangência \(TMS = p_x/p_y\) não é satisfeita; em vez disso, as condições de Kuhn-Tucker governam a solução:

\[\frac{U_x}{p_x} \geq \frac{U_y}{p_y}\]

com \(y = 0\). O consumidor obtém mais utilidade marginal por real gasto em \(x\) do que em \(y\), e não vale a pena comprar \(y\).

Exemplos: bens com substitutos perfeitos (margarina vs. manteiga) ou bens de luxo inacessíveis.

O caso geral: Lagrangiano para \(n\) bens

Para \(n\) bens, o problema é resolvido pelo método de Lagrange:

\[\mathcal{L} = U(x_1, x_2, \ldots, x_n) + \lambda \left(I - \sum_{i=1}^{n} p_i x_i\right)\]

As condições de primeira ordem são:

\[\frac{\partial \mathcal{L}}{\partial x_i} = U_i - \lambda p_i = 0 \quad \Rightarrow \quad U_i = \lambda p_i \quad \forall \; i\]

Dividindo as condições de dois bens \(i\) e \(j\):

\[\frac{U_i}{U_j} = \frac{p_i}{p_j} \quad \Rightarrow \quad TMS(x_i \text{ por } x_j) = \frac{p_i}{p_j}\]

A condição de ótimo se generaliza: para qualquer par de bens, a TMS deve igualar a razão de preços. O consumidor ajusta seu consumo até que o valor subjetivo de trocar qualquer bem por outro seja igual ao custo de mercado dessa troca.

Interpretação de \(\lambda\): utilidade marginal da renda

Das condições de primeira ordem, \(U_i = \lambda p_i\) para todo bem \(i\), portanto:

\[\lambda = \frac{U_i}{p_i} \quad \forall \; i\]

O multiplicador \(\lambda\) é a utilidade marginal da renda: o aumento de utilidade obtido com uma unidade adicional de renda.

No ótimo, a utilidade marginal por real gasto é igual para todos os bens — caso contrário, valeria a pena realocar a renda.


Preço como disposição a pagar. Reorganizando: \(p_i = U_i / \lambda\). O preço de mercado de cada bem iguala a utilidade marginal do bem dividida pela utilidade marginal da renda. Isso interpreta o preço como a disposição marginal a pagar pelo bem.


Se \(\lambda\) for grande (renda escassa), o consumidor é mais sensível a preços. Se \(\lambda\) for pequeno (renda abundante), variações de preço têm menor impacto sobre o bem-estar.

Funções de demanda

A solução do problema do consumidor gera as funções de demanda marshalliana: \(x_i^* = x_i(p_1, p_2, \ldots, p_n, I)\)

Cobb-Douglas \(U = x^{\alpha} y^{\beta}\)

\[x^* = \frac{\alpha}{\alpha+\beta} \cdot \frac{I}{p_x}\]

\[y^* = \frac{\beta}{\alpha+\beta} \cdot \frac{I}{p_y}\]

\(TMS = \frac{\alpha}{\beta} \cdot \frac{y}{x}\)

Fração da renda constante

Curvas de indiferença: hipérboles

Substitutos perfeitos \(U = ax + by\)

\[x^* = \frac{I}{p_x} \;\text{se}\; \frac{a}{p_x} > \frac{b}{p_y}\]

\[y^* = \frac{I}{p_y} \;\text{se}\; \frac{b}{p_y} > \frac{a}{p_x}\]

\(TMS = \frac{a}{b}\) (constante)

Tudo-ou-nada: gasta tudo no bem com maior utilidade por real

Curvas de indiferença: retas

Complementos perfeitos \(U = \min(ax, by)\)

\[x^* = \frac{bI}{bp_x + ap_y}\]

\[y^* = \frac{aI}{bp_x + ap_y}\]

TMS indefinida no vértice

Proporção fixa: \(ax = by\)

Curvas de indiferença: L (ângulo reto)

Demanda marshalliana (ou ordinária): expressa a quantidade ótima como função dos preços e da renda. É o resultado direto da maximização de utilidade sujeita à restrição orçamentária.

Variação na renda

Nicholson, Table E.4.1

Referências

NICHOLSON, W.; SNYDER, C. Microeconomic Theory: Basic Principles and Extensions. 11. ed. [s.l.] South-Western, Cengage Learning, 2012.
___. Teoria microeconômica: princı́pios básicos e aplicações. [s.l.] Cengage Learning Edições, 2018.
PERLOFF, J. M. Microeconomics with Calculus, Global Edition. 5. ed. [s.l.] Pearson, 2022.